Reflexões do 27º  Domingo do Tempo Comum

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Por José Luiz Gonzaga do Prado – Nova Resende – MG

A Realidade

“A força do mal é muito grande, não adianta lutar, ninguém consegue tirar a maldade enraizada no coração do homem”. “O Evangelho propõe muita coisa bonita, mas é utopia, isso não existe, nós não vamos conseguir mudar nada”. Está aí o Sínodo da Amazônia. É um sonho muito bonito, mas quem disse que vamos conseguir impedir a destruição final da mata com sua biodiversidade, incluindo aí os índios e os posseiros que lá vivem? Devemos deixá-la entregue à luta das forças econômicas que lá tem seus interesses. “O máximo que a gente pode fazer é ter fé e rezar muito para que Deus faça alguma coisa, a gente mesma nada pode e nada consegue”. Quem nunca ouviu ou falou algo parecido?

A Palavra

No contexto da primeira leitura (Hab 1,2-3; 2,2-4), o povo estava numa situação que parecia sem saída, desesperadora mesmo. A resposta de Deus é de confiança, de esperança, de fé na força do bem. É pela fé ou fidelidade que a gente se salva. O Salmo responsorial (95 [94] 1-2.6-9) é de confiança nos caminhos de Deus. Os que não confiaram não entraram na Terra Prometida.

No Evangelho (Lc 17,5-10) os apóstolos, aqueles que Jesus envia ao mundo, pedem que Jesus lhes aumente a fé. Eles precisam ter fé, acreditar na força do bem, crer que é possível vencer as forças do mal. Jesus responde comparando a fé com um grão de mostarda. É uma semente bem pequenina, mas tem uma árvore no seu interior.

Com fé verdadeira, mesmo pequena como o grão de mostarda, podemos arrancar de nós mesmos e até da nossa sociedade o mal que está aí tão enraizado como uma amoreira. Podemos arrancar e mandar que vá se plantar no mar, no reino da morte.

“Ter fé não é fazer tudo e só o que foi mandado”. Isso é a mentalidade da lei, ter fé é ter iniciativa, é ter coragem,  é responder aos desafios do tempo atual, ser capaz de criar, de inventar caminhos novos.

O Papa Francisco tem falado frequentemente que, para nos guiar, precisamos ter uma utopia, um sonho, um horizonte, que é onde o céu se emenda com a terra (“assim na terra como no céu”), sem isso, não sabemos para onde caminhar. Depois que ele falou tantas vezes em não perder a esperança, mas remar contra a corrente, não basta mais cumprir apenas as obrigações de rotina, é preciso inovar.

O Mistério

A Eucaristia celebra a utopia, o horizonte, a terra alcançando o céu. O “partir do pão” traz em si duas Boas Novidades inacreditáveis. Uma, o Pão da igualdade condena toda desigualdade do nosso mundo. Outra, isso acontece porque Alguém, em vez de sacrificar os outros em seu proveito, se sacrifica todo, parte-se em pedaços e dá o sangue por todos. É assim que ele cria a comunhão.

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“Aumenta a nossa fé!”

Pe. Tomaz SVD

Lucas reúne nos primeiros dez versículos deste capítulo diversos dizeres de Jesus sobre algumas atitudes fundamentais para a vida de quem quer seguí-Lo pelo caminho do discipulado. Podemos dividir o trecho de hoje em duas partes: vv. 5-7 e vv. 8-10.

A primeira parte trata da questão da fé inabalável, que deve ser característica do discípulo. Inicia-se o diálogo com os apóstolos expressando diante de Jesus a sua insegurança quanto à sua fé: “Os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta a nossa fé!” (v. 5). Tal pedido tem outros ecos nos evangelhos. Faz-nos lembrar do pai do moço epiléptico em Marcos: “Eu tenho fé, mas ajude a minha falta de fé!” (Mc 9, 24).

É a experiência de todo(a) discípulo(a) – acreditamos em Jesus, queremos seguir a sua pessoa e o seu projeto, mas a vida se encarrega de nos demonstrar como é fraca a nossa fé – quantas caídas, traições, incoerências, recaídas! O único recurso é pedir este dom gratuito de Deus, que ninguém pode exigir por seus próprios méritos, que é a fé inabalável. Do fundo no nosso ser gritamos com os Doze: “Aumenta a nossa fé!”

Com a hipérbole (exagero) típica do oriental, Jesus enfatiza tanto a necessidade da fé quanto a sua força, através das imagens do grão de mostarda (semente bem pequena), e do sicômoro – árvore mais ou menos grande que tem um sistema extensivo de raízes: “Se vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a este sicômoro: “Arranque-se daí, e plante-se no mar. E ela obedeceria a vocês.” (v. 6)

A segunda parte do trecho fala sobre a atitude correta de quem tem um ofício ou ministério dentro da comunidade cristã. Em outros trechos – como 12, 35-37 – Lucas enfatiza a gratuidade de Deus diante da escolha dos seus discípulos. Aqui temos o outro lado – a responsabilidade de quem foi chamado sem mérito algum da sua parte. Ser chamado para qualquer ministério, ordenado ou não, é para que sigamos o exemplo do Mestre, que não veio para ser servido mas para servir, e não para nos vangloriarmos como se fôssemos mais do que os outros membros da comunidade.

O ensinamento não é que os discípulos não valem nada, nem que o seu trabalho não tem valor. O ponto central é que o fato de terem desenvolvido bem as suas tarefas e missão não lhes dá o direito de exigir a graça de Deus por causa dos seus méritos. Tal graça é, e sempre será, um dom gratuitamente oferecido.

Hoje nós estamos na mesma situação dos apóstolos – fomos chamados à fé sem mérito algum da nossa parte. Agradecendo a Deus por este dom, assumamos a nossa parte – a de cumprir bem a missão recebida, sem nos gabarmos disso, pois se nós conseguimos fazer bem as coisas, também é porque podíamos contar com a graça de Deus (cf. 2 Cor 12, 1-10). Sem falsa humildade, mas também sem vaidade, devemos rezar: “Somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (v. 19)

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Fé como um grão de mostarda (Lucas 17,5-10) –

Orides Bernardino

Para muitas igrejas, a Palavra proposta para a liturgia do próximo final de semana é Lucas 17,5-10, onde Jesus procura mostrar que “os cristãos são servos de Deus, e que o serviço a Deus não deve ser concebido como fonte de méritos”.

Estamos ainda durante a “grande viagem a Jerusalém” (9,51-19,27) com os desafios, exigências e obstáculos no seguimento de Jesus. A viagem reflete o caminho das comunidades cristãs com suas crises e busca de solução aos desafios propostos pelo evangelho.

Lucas reúne, nos primeiros dez versículos deste capítulo, diversos dizeres de Jesus sobre algumas atitudes fundamentais para a vida de quem quer segui-Lo pelo caminho do discipulado. Podemos dividir o trecho de hoje em duas partes: vv. 5-6 e vv. 7-10.

A força da fé

Em Lucas 17,5-6, os apóstolos pedem ao Senhor: “aumenta-nos a fé!”. Jesus responde que não se trata de quantidade, de ter “mais” ou “menos” fé, mas de qualidade. Ela deve ser genuína como a semente que traz em si todas as potencialidades da árvore. Uma fé qualificada com esta potencialidade é capaz de arrancar da terra uma árvore de profundas raízes e plantá-la no mar. É claro que se trata de uma metáfora, mas mostra claramente a força da fé. É uma fé assim que será capaz de reacender a chama e o entusiasmo da comunidade.

Servir desinteressadamente

Nos versículos 7-10, Lucas nos apresenta uma parábola que reflete a prática pastoral de Paulo: “anunciar o evangelho não é título de glória para mim; pelo contrário, é uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim se eu não anunciar o evangelho! Se eu o anunciasse de própria iniciativa, teria direito a um salário; no entanto, já que o faço por obrigação, desempenho um cargo que me foi confiado. Qual é, então, o meu salário? É que, pregando o evangelho, eu o prego gratuitamente sem usar dos direitos que a pregação do evangelho me confere. Embora eu seja livre em relação a todos, tornei-me servo de todos, a fim de ganhar o maior número possível” (1Cor 9,16-19).

A parábola pode chocar um pouco, pois parece justificar a escravidão. Não, Jesus não está justificando a escravidão. Essa era a realidade de seu tempo. Havia muitas pessoas escravas. E Jesus tinha consciência dessa vida de opressão que era imposta a escravos. No entanto, o sistema escravocrata não fazia parte do projeto do reinado de Deus, onde ninguém está acima de ninguém, pois “todos são irmãos” (Mateus 23,8). Em seu programa não há lugar para escravos: “Já não vos chamo escravos, pois o escravo não sabe o que o seu senhor faz. Eu vos chamei amigos, porque vos comuniquei tudo o que ouvi de meu Pai” (João 15,15). Este evangelho é herança das comunidades fundadas por Paulo, que entendeu muito bem a proposta de Jesus. Por isso, Paulo pediu com ternura e encarecidamente a Filemon que libertasse o escravo Onésimo (Filemon 16).

Ao contar esta parábola, Jesus quer mostrar, usando um fato da vida daquele tempo, que os cristãos são servos de Deus, e que o serviço a Deus não deve ser concebido como fonte de méritos. A parábola, portanto, deduz que o discípulo não evangeliza por iniciativa própria, mas cumpre um mandato. Não tem consequentemente o que exigir em troca. Jesus, que confia ao discípulo seu projeto, não se sente obrigado a nada quando este cumpre sua obrigação. Esperar elogios ou alguma recompensa não é se tornar solidário, e sim, ambicioso. Melhor é se libertar da ambição de ser recompensado e descobrir a alegria de servir.

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Dehonianos

EVANGEHO – LUCAS 17,5-10 – MENSAGEM

A primeira parte do nosso texto é, portanto, constituída por um “dito” sobre a fé (vers. 5-6). Depois das exigências que Jesus apresentou, quanto ao caminho que os discípulos devem percorrer para alcançar o “Reino”, a resposta lógica destes só pode ser: “aumenta-nos a fé”. O que é que a fé tem a ver com a exigência do “Reino”?

No Novo Testamento em geral e nos sinópticos em particular, a fé não é, primordialmente, a adesão a dogmas ou a um conjunto de verdades abstractas sobre Deus; mas é a adesão a Jesus, à sua proposta, ao seu projecto – ou seja, ao projecto do “Reino”. No entanto, os discípulos têm consciência de que essa adesão não é um caminho cómodo e fácil, pois supõe um compromisso radical, a vitória sobre a própria fragilidade, a coragem de abandonar o comodismo e o egoísmo para seguir um caminho de exigência… Pedir a Jesus que lhes aumente a fé significa, portanto, pedir-Lhe que lhes aumente a coragem de optar pelo “Reino” e pela exigência que o “Reino” comporta; significa pedir que lhes dê a decisão para aderirem incondicionalmente à proposta de vida que Jesus lhes veio apresentar.

Jesus aproveita, na sequência, para recordar aos discípulos o resultado da “fé”. A imagem utilizada por Jesus (a ordem dada à “amoreira” para se arrancar da terra e ir plantar-se a ela própria no mar) mostra que, com a “fé” tudo é possível: quando se adere a Jesus e ao “Reino” com coragem e determinação, isso implica uma transformação completa da pessoa do discípulo e, em consequência, uma transformação do mundo que o rodeia. Aderir ao “Reino” com radicalidade é ter na mão a chave para mudar a história, mesmo que essa transformação pareça impossível… O discípulo que adere ao “Reino” com coragem e determinação é capaz de autênticos “milagres”… E isto não é conversa fiada: quantas vezes a tenacidade e a coragem dos discípulos de Jesus transformam a morte em vida, o desespero em esperança, a escravidão em liberdade!

Na segunda parte do nosso texto (vers. 7-10), Lucas descreve a atitude que o homem deve assumir diante de Deus. Os fariseus estavam convencidos de que bastava cumprir os mandamentos da Torah para alcançar a salvação: se o homem cumprisse as regras, Deus não teria outro remédio senão salvá-lo… A salvação dependia, de acordo com esta perspectiva, dos méritos do homem. Deus seria, assim, apenas um contabilista, empenhado em fazer contas para ver se o homem tinha ou não direito à salvação…

Jesus coloca as coisas numa dimensão diferente. A atitude do discípulo – desse discípulo que adere a Jesus e ao “Reino”, que faz as “obras do Reino” e que constrói o “Reino” – frente a Deus não deve ser a atitude de quem sente que fez tudo muito bem feito e que, por isso, Deus lhe deve algo; mas deve ser a atitude de quem cumpre o seu papel com humildade, sentindo-se um servo que apenas fez o que lhe competia.

O que Jesus nos pede no Evangelho de hoje é que percorramos, com coragem e empenho, o “caminho do Reino”. Quando o discípulo aceita percorrer esse caminho, é capaz de operar coisas espantosas, milagres que transformam o mundo… E, cumprida a sua missão, resta ao discípulo sentir-se servo humilde de Deus, agradecer-Lhe pelos seus dons, entregar-se confiada e humildemente nas su

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