Reflexões do 17º Domingo do Tempo Comum

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Com alegria envio reflexões litúrgicas.

Com ternura,Magda Melo.

 

Reflexões litúrgicas – 17º domTComum – Lc 11,1-13 – Ano C – 28-07-19

Jesus orante nos ensina a orar – Pe Adroaldo

Três chamadas de Jesus – José Antonio Pagola

Senhor, ensina-nos a orar! – Ildo Bohn Gass – CEBI!

Senhor, ensina-nos a orar! – Ana Maria Casarotti. 

Ensina-nos a rezar! – Tomaz Hughes SVD – Cebi

Para que nossa oração se torne VIDA e a vida se torne Oração – Marcelo Barros

DOMINGO XVII DURANTE EL AÑO – CICLO “C”

 

 

17º domingo do Tempo Comum – Lc 11,1-13 – Ano C – 28-07-19

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Jesus orante nos ensina a orar

Pe Adroaldo

Nos Evangelhos encontramos várias passagens nas quais Jesus é apresentado orando no silêncio da noite, em profunda e prolongada comunhão com o Pai. Em geral, a oraçãosolitária de Jesus precede ou segue a algum acontecimento muito importante.

A sua solidão não é vazia; está habitada pela intimidade com o Pai, pelo sonho do Reino, pelos rostos dos prediletos do Reino: os pecadores, os pobres, os doentes, os oprimidos…

Quando Jesus parece estar mais afastado deles é quando na realidade está em mais profunda comunhão com eles; quando aparentemente está mais solitário é quando Ele se revela mais solidário.

Por isso, toda forma de oração, toda forma de relacionamento com Deus que não leva ao serviço concreto do Projeto do Pai, não é a oração do discípulo de Jesus, é uma oração alienada.

Uma oração que não se traduz em compromisso com a justiça do Reino, que não se traduz em serviço aos mais necessitados, não é de fato dirigida ao Deus de Jesus.

Para Jesus, a oração não só fazia parte da vida: ela era a sua vida. Em cada instante, vivia em profunda sintonia na presença de Deus, seu Pai. Jesus não esconde nada ao Pai. As suas alegrias e dores, as suas esperanças e as suas noites foram sempre partilhadas com o Pai.

Na experiência de Jesus, Deus é “Aquele que está aí como um Pai” que cuida de seus filhos e filhas, que tem um coração sensível aos nossos sofrimentos, que seu olharrepousa sobre nossos problemas e seu ouvido é atento aos nossos clamores.

Jesus, o artista da madeira, soube “tornear” hábeis palavras para expressar essa profunda intimidade entre o ser humano e Deus. É isso que encontramos na oração do “Pai-Nosso”, que o evangelho deste domingo nos apresenta na versão de Lucas.

novo está justamente no modo como as pessoas devem se relacionar com Deus: “Quando orardes, dizei: Pai!” É uma relação nova e inédita. Os(as) seguidores(as) de Jesus não são somente amigos(as), são filhos(as) de Deus, que é Pai.

A principal oração cristã não se reduz a um conjunto de pedidos, mas é a expressão de uma relação confiante e filial. Essa é a originalidade de Jesus. O apelo direto ao Pai não é comum na tradição judaica.

Jamais palavras simples tiveram tanta profundidade. Jamais um texto tão pequeno foi tão revolucionário.

Com efeito, a oração do Pai-Nosso é a mais clara e mais expressiva síntese que temos da mensagem de Jesus. Ela não é uma fórmula a ser decorada, mas umprojeto de vidacujas atitudes levam a uma assimilação progressiva da filiação e da fraternidade.

Com o discípulo Filipe, nós também podemos dizer: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta” (Jo 14,8).

É significativo que, no espaço de uma prece tão sóbria como é o Pai-Nosso, Jesus deseja reconduzir o coração orante à sua essência: o próprio Pai. O ser humano é alvo do amorcarinhoso de Deus-Pai, cujo nome ele conhece e guarda no coração. Podemos dizer que o objetivo da oração é colocar-nos no Pai, inscrever-nos no seu coração: “eu sou no Pai, existo no Pai”.

A oração cristã é aquela que se desenvolve seguindo os passos de Jesus e, aí, orar é viver, com todas as nossas forças, com todo o nosso afeto e com toda a nossa realidade, na presença de Deus. Nesse sentido, a oração não pode ser um compartimento do dia, um pequeno nicho que preenchemos com pensamentos e fórmulas piedosas.

Clamar “Abba, Pai” significa ser e estar diante d’Aquele que nos convida a um diálogo sem censuras, de sentir-nos envolvidos por inteiro e continuamente por uma presença providente, com uma atenção vigilante. Não se trata de oferecer a Deus alguns pensamentos, mas colocar em suas mãos toda a nossa vida, tudo o que somos e experimentamos.

Tal oração pede uma conversão de atitude, porque a verdadeira oração cristã descentra-nos de nós mesmos e orienta-nos para Deus, de modo que tudo o que passamos a desejar é a vontade de Deus, o dom do seu amor compassivo.

Ao rezar o Pai-Nosso, vamos percebendo que Jesus transforma todas as nossas questões em desejos e nossos desejos em oração. Tudo está dito aí, mas tudo resta a viver. É agora que começa o movimento da vida, não apenas a prece, mas a encarnação da prece; não apenas o desejo, mas a realização dos grandes desejos. E realizar todos os desejos que o Pai-Nosso exprime é nos tornar aquilo que somos chamados a ser, é nos tornar realmente humanos e realmente divinos.

O “Abba” de Jesus não é um Deus insensível e impassível, mas um Pai solidário, que quebra distâncias e se faz íntimo dos seus filhos e filhas. Não é um Deus que imprime culpa e controla comportamentos, mas um pai apaixonado que deseja ardentemente ser conhecido e criar vínculos de amor.

Aos cuidados deste Deus-Pai o ser humano pode confiar, sentir-se filho. “Abba” significa, portanto, “Deus-está-em-nosso-meio”, encontra-se junto aos seus, com misericórdia, bondade, ternura.

Nessa oração, nenhum miserável foi excluído, nenhum errante foi rejeitado, nem sacrifício foi pedido, nenhum dogma proclamado, nenhuma lei estabelecida. Ela é pura visibilização do Amor. E basta!

Ao dizer “Abba”, Jesus dirigia-se a Deus como uma criança a seu pai, com a mesma simplicidade íntima, o mesmo abandono confiante. Esta expressão revela, ao mesmo tempo, o segredo da relação íntima de Jesus com o Pai e a manifestação perfeita do mistério de sua missão.

A expressão “Abba” é a prece da criancinha que balbucia tentando dizer a palavra “pai”, a prece não articulada que ainda pertence ao silêncio, ao Inefável.

É a primeira expressão do desejo do outro, quando o outro é chamado através do seu balbuciar.

É a primeira expressão de confiança do bebê em relação ao seu pai ou à sua mãe.

O “Pai-Nosso” é este balbuciar interior, que se volta para o Infinito, para o Absoluto, e que nenhuma palavra pode expressar. É uma palavra anterior à palavra “pai” e à palavra “mãe”.

É o desejo que vem da criança e que se reconhece no olhar do pai ou da mãe como um ser amado, porque uma relação particular foi estabelecida.

Na expressão “Abba” há simplicidade demais, espontaneidade demais e muita inocência. Estas qualidades de coração e de inocência é necessário que as encontremos quando recitamos o Pai-Nosso.

O mais importante é estar à escuta desse desejo profundo e silencioso da “criança divina” que habita cada um de nós.

 

Para meditar na oração:

Deter-se na contemplação desta dupla dimensão do ministério de Jesus, que revela o mais profundo da sua vida: a oração e a ação, a solidão e a solidariedade, a intimidade mais profunda com o Pai e o engajamento mais radical no serviço aos necessitados. Em Jesus, estas duas dimensões são vividas não só como complementares, mas como necessariamente referidas uma à outra.

– Pedir a Jesus que Ele nos ensine a orar ao Pai como Ele orava; penetrar um pouco na intimidade da oração d’Ele. Na nossa oração podemos nos apropriar de algumas orações ou palavras de Jesus que aflorarem espontaneamente à nossa memória e convertê-las em nossa própria oração, fazendo com que elas saiam do nosso coração.

Podemos também rezar a partir do coração de Jesus a oração que Ele nos ensinou, e que Ele mesmo rezou melhor que ninguém: “Abba, Pai!”.

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Três chamadas de Jesus

José Antonio Pagola

“Eu vos digo: Peçam e lhes será dado. Procurem e encontrarão! Chamai e se vos abrirá.” É provável que Jesus tenha proferido essas palavras quando se deslocava pelas aldeias da Galileia, pedindo algo para comer, procurando abrigo e batendo à porta dos vizinhos. Ele sabia aproveitar as experiências mais simples da vida para despertar a confiança dos seus seguidores no Pai Bom de todos.

Curiosamente, em nenhum momento nos é dito o que temos que pedir ou procurar nem em que porta bater. O importante para Jesus é a atitude. Diante do Pai devemos viver como pobres que pedem o que necessitam para viver, como pessoas perdidas que procuram o caminho que não conhecem bem, como pessoas indefesas que chamam à porta de Deus.

As três chamadas de Jesus convidam-nos a despertar a confiança no Pai, mas este convite é realizado com matizes diferentes. “Pedir” é a atitude própria do pobre. Temos que pedir a Deus o que não podemos dar a nós mesmos: o alento da vida, o perdão, a paz interior, a salvação. “Procurar” não é somente pedir. É, além disso, dar passos para conseguir o que não está ao nosso alcance. Assim, devemos buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça: um mundo mais humano e digno para todos. “Chamar” é bater à porta, insistir, gritar a Deus quando o sentimos longe.

A confiança de Jesus no Pai é absoluta. Quer que os seus discípulos nunca o esqueçam: o que pede, está a receber; o que procura encontra e o que chama se lhe abre. Jesus não diz o que recebem concretamente os que estão a pedir, o que encontram os que procuram ou o que alcançam os que gritam. Sua promessa é outra: aqueles que confiam em Deus, recebem; aqueles que acodem a Ele recebem “coisas boas”.

Jesus não dá explicações complicadas. Dá três exemplos que os pais e as mães de todos os tempos podem entender. Quem é o pai ou a mãe que, quando o filho lhe pede um pedaço de pão, lhe dá uma pedra como as que se veem no caminho? Ou, se lhe pede um peixe, lhe dará uma cobra? Ou, se lhe pede um ovo, lhe dará um escorpião daqueles que se veem na margem do lago?

Os pais não escarnecem dos seus filhos. Não os enganam, nem lhes dão algo que possa prejudicá-los, a não ser «coisas boas». Jesus tira rapidamente a conclusão. “Quanto mais o vosso Pai do Céu dará o seu Espírito Santo àqueles que lhe peçam”. Para Jesus, o melhor que podemos pedir e receber de Deus é seu Sopro, seu Espírito, seu Amorque sustenta e salva a nossa vida.

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Senhor, ensina-nos a orar! (Lucas 11,1-13)

Ildo BohnGass – CEBI!

O evangelho proposto para este final de semana é a respeito do conteúdo da oração e sobre como orar com perseverança e confiança.

De um lado, as orientações de Jesus a respeito da oração estão imediatamente após a catequese sobre o mandamento do amor (Lucas 10,25-28) colocado em prática através da solidariedade (Lucas 10,29-37), do serviço e do seguimento (Lucas 10,38-42). A comunhão com o Espírito de Deus cultivada na oração é a fonte do amor, da misericórdia, da diaconia e do discipulado.

De outro lado, as orientações de Jesus a respeito da oração encontram-se imediatamente antes da expulsão de um demônio de uma pessoa muda (Lucas 11,14). Seu poder de cura está intimamente vinculado à sua oração (Lucas 11,1) e à fé das pessoas (Lucas 7,50; 17,19; 18,42).

Podemos dividir a catequese sobre a oração em três partes.

  1. A oração de Jesus e dos/as discípulos/as (Lucas 11,1-4)

Jesus é uma pessoa de profunda oração. Ele rezava muito, seja em momentos decisivos de sua vida, seja no cotidiano. Estava sempre em busca de comunhão com o Pai. Nessa intimidade filial, estava o segredo de sua missão.

Em Mateus, temos sete pedidos no Pai-nosso (Mateus 6,9-13). Em Lucas, são cinco. Lucas deve estar mais próximo da oração que Jesus sempre rezava. A comunidade de Mateus acrescentou o desejo de que a vontade de Deus fosse realidade assim na terra como já é no céu. É que os judeus cristãos não podiam deixar a Lei de Deus fora do Pai-nosso. E a forma como o fizeram foi através do terceiro pedido. Mas como deixar o pedido pelo Pão-nosso no coração da oração de Jesus? Então, para manterem ímpar o número dos pedidos, repetiram o último em forma afirmativa: “Mas livra-nos do maligno” (Mateus 6,13). Desse modo, o Pão-nosso continuava no centro da oração de Jesus e de seus discípulos.

Diferentemente de Mateus, onde Jesus toma a iniciativa de ensinar o Pai-nosso (Mateus 6,7-9), em Lucas, depois de acompanhar Jesus em oração, um seguidor lhe pede que também ensine o seu segredo aos discípulos. “Senhor, ensina-nos a orar”. Então, Jesus lhes revela o seu jeito de se relacionar com o Pai. E partilhou a sua experiência. Esta oração é a síntese de seu projeto.

Nos dois primeiros pedidos, Jesus nos propõe acolher o Pai com o seu projeto, expresso por seu nome e pela justiça do reino. Nos três pedidos seguintes, Jesus nos pede que, da mesma forma como ele, também nós respondamos ao Pai, vivendo novas relações entre nós.

Pai

Abbá quer dizer paizinho, papai querido, tal como as crianças se dirigem a seus pais. É uma relação de confiança, de entrega e de intimidade. É um pai que gera vida, que acolhe e perdoa, que cria para a liberdade. Chamando a Deus de paizinho, reconhecemos também a nossa filiação divina, pois Jesus disse que o seu Pai também é nosso Pai (João 20,17).

1.1. Santificado seja o teu nome

Para o povo da Bíblia, o nome representa a própria pessoa. Santificar, portanto, o nome de Deus é o desejo de se comprometer com ele, de tornar realidade o seu nome, Abbá. Ser filho e filha desse paizinho nos leva a ter com ele uma relação de confiança e de liberdade. Leva-nos a revelar a sua glória, que se manifesta na vida do povo, especialmente dos mais fracos. Leva-nos também a viver plenamente como pessoas libertas e engajadas na luta pelo direito de todas as pessoas de serem verdadeiramente livres de todas as formas de escravidão, de todos os ídolos mundanos que nos tornam seus escravos.

Seu nome também é Javé. “Assim serei lembrado de geração em geração” (cf. Êxodo 3,14-15). Santificar o seu nome é atualizar sua presença libertadora na luta pela dignidade do povo excluído pelo sistema opressor do Egito. Quais sãos os sistemas que hoje nos escravizam, grandes ou pequenos?

1.2. Venha o teu Reino

Desejar o Reino é abrir-se para acolher o projeto de justiça e de amor vivido por Jesus, a fim de concretizá-lo aos poucos em nosso dia a dia. Viver segundo o Reino é deixar-se conduzir por seu Espírito, ao ponto de ter vida em abundância e de podermos dizer com o apóstolo Paulo que “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2,20).

1.3. O pão nosso cotidiano nos dá dia a dia

Este é o pedido central do Pai-nosso. Ao colocar o pedido pelo pão no coração de sua oração, Jesus nos mostra que o pão repartido, isto é, a economia não acumulada é o centro do projeto de Deus. Definitivamente, a economia está no centro do plano de Deus, uma economia solidária, partilhada, não acumulada.

O significado do pão é mais amplo e se refere também a todas as necessidades fundamentais para vivermos com a dignidade de filhas e filhos de Deus, tais como as seis necessidades lembradas por Jesus em Mateus 25,35-36: comida, água, casa, roupa, saúde e liberdade. E mais. É também o pão repartido na Santa Ceia.

1.4. E perdoa os nossos pecados, assim como também nós perdoamos a todo o que nos deve

O perdão de Deus é incondicional. Jesus revelou o amor do Pai, doando sua vida livremente, porém, na fidelidade ao projeto do Reino. Da mesma forma, este pedido do Pai-nosso nos convida a exercermos a misericórdia com perdão pleno, garantindo, dessa forma, vida digna a todas as pessoas, não permitindo que as dívidas sejam causa de sofrimento e humilhação. Somente pessoas reconciliadas podem viver relações harmoniosas e de justiça.

A misericórdia de Deus é sem limites. Ele está sempre pronto para perdoar, até mesmo em situações limite, como o caso em que Jesus perdoa a seus algozes: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lucas 23,34). No entanto, só é capaz de acolher o seu perdão quem for capaz de também perdoar. Somente a atitude de humildade nos abre para acolher o perdão infinito do Pai. O Pai do filho perdido já estava oferecendo seu perdão desde a hora em que ele decidiu seguir outro caminho. Porém, o filho somente experimentou a misericórdia do Pai no momento em que caiu em si e se abriu ao perdão gratuitamente oferecido pelo Pai (Lucas 15,11-32).

1.5. E não nos conduzas para a tentação

Jesus deixou bem claro quais são as principais tentações do maligno e que impedem vivermos conforme as relações do Reino. No relato das tentações, Jesus nos revela as principais seduções que nos afastam do caminho de Deus: a ganância da riqueza, a ambição do poder, a glória do prestígio e soluções mágicas para resolver a fome (Lucas 4,1-13). Para fazer frente a essas tentações, Jesus nos propõe o caminho da partilha da riqueza, do poder colocado a serviço e da simplicidade no viver.

 

  1. Orar com insistência, com perseverança (Lucas 11,5-10)

Com a parábola do amigo importuno, Jesus revela mais características da oração, isto é, a insistência e a perseverança, de um lado, e, de outro, a certeza de sermos escutados, diante da solidariedade e da gratuidade de Deus. Por isso, “peçam e receberão; procurem e encontrarão; batam, e a porta será aberta para vocês. Porque todo o que pede, recebe; todo o que procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá”.

Jesus nos desafia a orarmos com perseverança, pois a oração não pretende mudar Deus, uma vez que ele sabe o que precisamos. A oração pretende mudar a nós. Se custamos a receber e a encontrar, se a porta custa a se abrir, será que não somos nós que custamos a mudar nossas mentes e nossos corações?

 

  1. Pedir o Espírito Santo com confiança (Lucas 11,11-13)

Se as pessoas atendem aos seus amigos e familiares, se os pais não negam pão e peixe a seus filhos, muito mais o Pai do céu atenderá as necessidades de suas filhas e de seus filhos. O jeito de Deus ser Pai supera o jeito humano. Ele é Pai como na narrativa do filho perdido. Cria seus filhos para a liberdade. Quando erram, espera-os de braços abertos para acolhê-los no amor e com eles fazer festa.

Por fim, Jesus recomenda que peçamos o essencial ao Pai, isto é, o seu Espírito. É que ele é a força de Deus que animou a profecia no Antigo Israel (Isaías 61,1). Ele é o dinamismo que enviou Jesus de Nazaré anunciar uma boa-nova aos pobres (Lucas 4,18-19). É ele também a nossa força para testemunharmos, até os confins da terra, o projeto do Reino que Jesus viveu e anunciou (Atos 1,8).

E o Espírito de Jesus está aí da mesma forma como o sol a brilhar. E como a luz solar entra em uma casa? Ora, abrindo portas e janelas. Portanto, deixar que a luz do Espírito ilumine nossos passos está em nossas mãos. Sua força a conduzir nossas vidas será tanto maior quanto mais nos abrimos através da oração filial na busca de comunhão com nosso papai querido.

Por isso,

Pai,

Santificado seja o teu nome;

Venha o teu Reino;

O pão nosso cotidiano nos dá dia a dia;

E perdoa os nossos pecados, assim como também nós perdoamos a todo o que nos deve;

E não nos conduzas para a tentação.

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Senhor, ensina-nos a orar!

Ana Maria Casarotti.

A Igreja hoje nos oferece uma narrativa do Evangelho de Lucas. Jesus continua seu caminho a Jerusalém e Lucas nos apresenta o interesse de um dos discípulos de aprender a orar como Jesus.

Podemos perguntar-nos que terá visto esse discípulo, ao longo do tempo que conhece a Jesus, que fica com desejo de rezar como ele e por isso pede-lhe que lhe ensine a rezar.

Em vários momentos Lucas apresenta Jesus orante. Como disse Gilvander Luis Moreira, frei e padre carmelita, assessor de CEBs, CEBI, SAB, CPT e Via Campesina, “O Evangelho de Lucas revela um Jesus orante  que cultiva a intimidade com o Pai pela oração. Jesus se prepara, por meio da oração, para um encontro face a face, olho a olho, com o Pai, com os outros e consigo mesmo. Uma oração libertadora mergulha-nos no mais profundo da nossa subjetividade, lá onde as palavras se calam e a voz de Deus se faz ouvir como apelo e desafio.

Jesus responde ao pedido de seus amigos/as. Num primeiro momento apresenta-lhes a relação que ele tem com Deus, seu Pai e como ele se relaciona. Ele se reconhece filho e seu Pai não é individual, por isso rezará Pai nosso.

Jesus ensina a orar aos discípulos a caminho de Jerusalém. Possivelmente ele quer dizer que rezar é caminhar, não é uma realidade fixa, estática, é realizar um projeto que leva toda a vida do cristiano. Considerando as leituras que lemos nos dois domingos anteriores, esta conhecida oração que Jesus nos ensina que orar é um compromisso com o próximo, com aqueles/as que estamos chamados a amar se desejarmos viver realmente a Boa Notícia.

Neles expressa-se nossa contínua luta por um bem comum, pela solidariedade, pela justa distribuição de todo aquilo que toda pessoa precisa para viver.

Para isto Jesus orienta seus discípulos a olhar para Deus Pai, reconhecendo seu Amor que nos gera constantemente como filhos/as seus e irmãos/ãs entre si.

Na oração do Pai Nosso Jesus fala da ação de Deus: é quem faz vir o reino, dá o pão de cada dia, perdoa os pecados, não nos deixa cair em tentação.

Fica claro que o sujeito da oração do Pai Nosso é Deus mesmo, somos convidados a nos relacionar com um Deus vivo, atuante, participar de sua vida e deixar que ela tome conta de nós e nos transforme. Isso é orar.

No Primeiro Século, quando foi redigido pela comunidade lucana, o texto não falava de um Pai que está “nos céus”. Foi séculos mais tarde que isso foi anexado e logo até foram interpretadas com uma progressiva distância da terra. Entendido geralmente como um Deus que fica distante, nos céus, fora da realidade terrena, além da dificuldade que se tem de entender o que é o céu!

Esta ideia é contrária à imagem de Deus que Jesus nos revela, é um Deus próximo, como disse Jose Antonio Pagola, presente na vida, na história. Os mesmos verbos usados para expressar a ação de Deus nessa oração conduzem a descobrir a sua presença, em nosso coração, no/a outro/a, na realidade.

Na passagem seguinte à oração do Pai Nosso em que Lucas apresenta a metáfora do amigo inoportuno, a intenção é mostrar uma atitude importante da pessoa orante, que é a confiança em Deus.

Devemos ter cuidado em não buscar nela uma imagem de Deus, porque senão “construiremos” novamente uma ideia de um Deus distante a quem se precisa trazer à nossa realidade, senão ele não ouve, não vê, não sente!

Não vai por aí o ensinamento de Jesus! O que ele quer passar é a importância de nos apresentar a Deus como somos, mesmo quando nos sentimos longe dele, como com a “porta fechada”!

Somos nós quem precisamos acudir a Ele e expressar-lhe o que nos acontece, não porque ele não o saiba, senão para assim abrir-lhe espaço em nós mesmos/as, nessa situação concreta para que seu Espírito se mova com liberdade, libertando-nos.

Não precisamos convencer Deus para que nos ame e salve, porque Ele é o primeiro em estar interessado na nossa felicidade e lutando por ela na força do Espírito que age em nós. A “compaixão” que Deus sente pela “miséria humana” é comparável à reação de uma mãe “diante da dor dos filhos”. “Assim Deus nos ama”, afirma Francisco.

E mais ainda é Deus mesmo quem nos chama e “suplica” para que colaboremos com Ele na construção de um mundo justo, solidário, livre.

O Deus Pai de Jesus Cristo que ama todos os seres humanos incondicionalmente é um Deus solidário conosco até a entrega total de seu Filho, mas na morte o ressuscita, nos ressuscita na força do seu Espírito.

E esse Espírito que oferece a todos/as como grande dom, só requer nossa disponibilidade para acolhê-lo, deixar-nos conduzir por ele.

O Deus de Jesus Cristo não quer “marionetes”, e sim seres humanos livres que entregam suas vidas à obra de salvação que o Espírito realiza no coração da humanidade.

De mesmo modo como os primeiros/as amigos/as de Jesus, deixemo-nos possuir pelo Amor do Pai, entremos em sintonia com sua ação salvadora no mundo e, reconhecendo nossa pequenez, confiemos na força do Espírito que nos habita e nos encoraja a nos unir cada vez mais ao “trabalho” do Pai, do Filho, do Espírito Santo: a felicidade de toda a humanidade!

Oração

Junto com toda a Igreja dispersa pelo mundo inteiro, rezemos hoje esta oração ao Pai, Nosso Pai deixando que ela nos ensine a viver como discípulos de Jesus com um coração semelhante ao seu

Pai Nosso (versão ecumênica)

Pai nosso que estás nos céus,
Santificado seja o teu nome, 
venha a nós o teu Reino,
Seja feita a tua vontade, 
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dá hoje,
perdoa-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
E não nos deixes cair em tentação,
mas livra-nos do mal,
pois teu é o Reino, 
o poder e a glória para sempre.
Amém.

Referências

KONINGS, Johan. Espírito e mensagem da liturgia dominical. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindis, 1981.

MONLOUBOU, Louis. Leer y predicar elevangelio de Lucas. Santander: Sal Terrae, 1982.

QUEIRUGA, Andrés Torres. Um Deus para os dias de hoje. São Paulo: Paulus, 1998.

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“Ensina-nos a rezar!”

Tomaz Hughes SVD – Cebi

O nosso texto de hoje nos traz o ensinamento da Oração do Senhor, na versão Lucana.  O Novo Testamento nos traz duas versões desta oração – a única oração que o Senhor nos ensinou: Lucas 11,2-4 e Mateus 6,9-13.  Normalmente os cristãos rezam na forma mateana, com sete petições e sem doxologia (oração de louvor).

A versão lucana só tem cinco petições.  A forma usada na Missa acrescenta a doxologia “porque Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para sempre”, baseada no texto trazido pela Didaché – um documento cristão do início do segundo século.  Alguns estudiosos explicam as duas formas a partir do fato de Lucas e Mateus estarem se dirigindo a comunidades diferentes, com tradições diferentes.  Mateus se dirigia a pessoas que tinham o costume de rezar, mas que corriam o risco de orar duma maneira muita formal e rotineira (judeu-cristãos), enquanto Lucas estava escrevendo para pessoas recém-convertidas (gentio-cristãos) e que precisavam aprender, talvez pela primeira vez, a rezar continuamente.

Embora não haja unanimidade entre exegetas sobre qual é a forma mais original, parece que o consenso tende em favor da versão Lucana.  A versão mateana apresenta a forma mais litúrgica do seu uso (p.ex. “Pai Nosso” em lugar do simples “Pai”), mas na verdade não há diferença essencial entre as duas versões.  Baseando-nos no trabalho dum exegeta alemão, Joaquim Jeremias, propomos a seguinte versão como a mais aproximada às palavras aramaicas de Jesus (devemos sempre lembrar que Jesus falava em aramaico, os evangelhos foram escritos em grego, e nós os lemos em português!):

“Querido Pai, santificado seja o Teu nome; venha o Teu Reino; o pão nosso de amanhã nos dá hoje; perdoa-nos as nossas dívidas, como queremos perdoar os nossos devedores, e não nos deixes sucumbir à Tentação.”

Seguindo este autor, tratamos a oração como uma “oração escatológica”, ou seja, a oração da comunidade cristã que experimenta o Reino como uma realidade já presente, mas que espera e pede a sua consumação final.

Uma chave para a compreensão lucana da Oração do Senhor, nós encontramos no primeiro versículo do texto: “Um dia, Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos discípulos pediu: ‘Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele’” (Lc 11,1). Essa frase nos faz lembrar que muitos grupos religiosos do tempo de Jesus tinham uma oração que identificasse os seus discípulos, como por exemplo, os Essênios, os Fariseus e os Batistas. Então o discípulo de Jesus pede uma oração que pudesse identificar o seu programa de vida, como discípulos de Jesus. Assim podemos ver a Oração do Senhor como algo mais do que uma oração – podemos vê-la como um “manifesto” da proposta de vivência da nossa fé. Vejamos mais de perto o texto:

  1. “Querido Pai” (ABBÁ)

É possível que muita gente tenha dificuldade em rezar o “Pai Nosso” por causa da sua experiência com o seu próprio pai.  Se nós tivemos um pai carinhoso, com quem desde criança nós nos sentíamos bem, então teremos facilidade de rezar a Deus como “Pai”.  Mas se o nosso pai era pessoa dura, ameaçadora, sem expressão de carinho, então podemos ter mais dificuldade em poder nos relacionar com Deus como “Pai Nosso”.  Outras pessoas – especialmente feministas – talvez achem que o título “Pai” para Deus traz conotações demasiadamente masculinizantes, quando não machistas.  Por isso, é importante aprofundar o sentido bíblico do termo, e o que significava na boca de Jesus.

Quando o Antigo Testamento descreve Deus como Pai, implica muito daquilo que a nossa cultura atribui à mãe. O Antigo Testamento se refere a Deus como Pai quinze vezes e enfatiza a ternura, a misericórdia, o carinho e o amor de Deus para o seu povo. Isso fica especialmente claro nos Profetas.  Vejamos alguns textos: “Serei um pai para Israel, e Efraim será o meu primogênito” (Jr 31,9); “Será que Efraim não é o meu filho predileto? Será que não é um filho querido? Quanto mais o repreendo, mais me lembro dele. Por isso minhas entranhas se comovem, e eu cedo à compaixão – oráculo de Javé” (Jr 31,20); “Eu tinha pensado contar você entre os meus filhos, dar-lhe uma terra invejável [ …] esperando que você me chamasse de “Meu Pai”, e não se afastasse de mim” (Jr 3,19); “Quando Israel era menino, eu o amei, e do Egito chamei o meu filho […] fui eu que ensinei Efraim a andar, segurando-o pela mão […] Eu os atraí com laços de bondade, com cordas de amor. Fazia com eles como quem levanta até seu rosto uma criança; para dar-lhes de comer, eu me abaixava até eles” (Os 11,1ss).

Nestes textos podemos sentir muitas das características que a nossa cultura ocidental atribui à mãe – portanto o termo “Pai” no Antigo Testamento não traz qualquer conotação machista.

Embora o Antigo Testamento fale de Deus como “Pai” quinze vezes, jamais alguém invoca Deus como “meu Pai”, ou “nosso Pai”.  O respeito do judeu diante da transcendência de Deus não permitia. Mas nos Evangelhos nós achamos o termo “Pai” para Deus na boca de Jesus 170 vezes.  Isso era coisa tão inédita que podemos ter certeza que se trata duma palavra autêntica de Jesus e não somente proveniente da Igreja primitiva.  Marcos a usa quatro vezes, Lucas 15 vezes, Mateus 42 vezes e João 109 vezes!  Na comunidade do Discípulo Amado, pelo fim do primeiro século, “Pai” é o termo para Deus.

A expressão que Jesus mesmo usava era “Abbá”, um termo aramaico sem sinônimo em português. Fazia parte da linguagem da intimidade do lar, um termo carinhoso usado tanto por crianças como por adultos, para o seu pai. Então ultrapasse o sentido da palavra nossa “papai”. Devemos dar muito peso a este ensinamento de Jesus, pois embora não exista na literatura rabínica um exemplo sequer do uso do termo “Abbá” para Deus, Jesus sempre se dirigia a Deus deste jeito, exceto em Mc 15,34 quando na cruz, citando um salmo, ele chama deus de “Eloí” (meu Deus).  Jesus então conversava com Deus com a segurança, intimidade e carinho com quem se conversa na ternura do seio família, e autorizou os seus discípulos a usar o mesmo termo.  Isso indica o novo relacionamento com Deus que Jesus nos trouxe.  É algo além do normal poder reivindicar tal relacionamento com Deus. São Paulo mantinha o termo aramaico, mesmo escrevendo em grego em Gálatas 4,6 e Romanos 8,15, quando ele diz: “A prova de que vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá Pai!” (Gal 4,6); “[…] receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abbá, Pai!” (Rm 8,15).

O “endereço” da oração determina não somente o nosso relacionamento com Deus, mas com os nossos irmãos e irmãs.  Pois, se Deus é o “Abbá” de todos nós, então somos todos iguais, e rezar esta oração exige que nós não nos compactuemos com qualquer coisa que nos discrimine – racismo, machismo, clericalismo, exploração etc.
Todas as petições seguintes da oração dependem deste endereço. Pois não estamos nos dirigindo a um Espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra, onipresente, onipotente e onisciente!  Estamos nos dirigindo ao nosso “Querido Pai”, e é este novo relacionamento, um dom incrível do próprio Deus, que faz possível as petições.  Por isso, na liturgia, a Igreja pede que se faça uma introdução à oração, como “Orientados pela Palavra de Jesus, ousamos rezar”, para que nós tomemos consciência da enormidade do dom de filiação que recebemos por Jesus.

  1. “Santificado seja o Teu nome”

Na forma atual, esta petição pode expressar tanto um louvor, (“Santificado seja o teu nome”) como petição (“Que o Teu Nome se torne santificado”).  No contexto, devemos entendê-la como pedido.  Podemos entender melhor a frase se voltamos de novo para um profeta do Antigo Testamento, Ezequiel: “Vou santificar o meu nome grandioso, que foi profanado entre as nações, porque vocês o profanaram entre elas. Então as nações ficarão sabendo que eu sou Javé, quando eu mostrar a minha santidade em vocês diante deles” (Ez 36,23).

Então, com este pedido rezamos que o mundo chegue a conhecer o nome (isto é, a realidade íntima) de Deus (que Ele é o nosso “querido pai”) através da nossa vivência. Torna-se uma oração missionária, com três elementos:

– primeiro, que nós cheguemos a conhecer cada vez mais quem é Deus;

– segundo, que o mundo chegue a este conhecimento através do nosso testemunho

– terceiro, que a plenitude da revelação da realidade de Deus venha logo; este é o aspecto escatológico.

 

  1. “Venha o Teu Reino”    

O tema central da pregação de Jesus era a iminência do Reino de Deus.  Se o “nome” de Deus se refere à sua natureza íntima, o “Reino” se refere à sua atividade.  Pedimos aqui a consumação final do Reino.  É a oração da comunidade que reconhece a presença do Reino, mas sente que ainda não é estabelecido definitivamente entre nós.  Temos outros trechos do Novo Testamento que expressam este desejo com a palavra aramaica “Maranathá”, (Vem, Senhor Jesus!), por exemplo, 1 Cor 16,22 e Ap. 22,20.

A versão mateana que nós costumamos rezar acrescenta “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”.  Isso é outra maneira de expressar a mesma ideia, pois quando a vontade de Deus é feita na terra como já se faz no céu, então o Reino estará plenamente realizado entre nós.

  1. “O pão nosso de amanhã nos dá hoje”

Os primeiros dois pedidos almejam a chegada do Reino na sua plenitude, mas as duas petições seguintes põe a ênfase sobre o “agora”, o “hoje”!

A primeira dificuldade que enfrentamos é com a tradução, pois aqui se usa uma palavra grega “epiousios” que não é usada em outro lugar no Novo Testamento.  Há quatro sentidos básicos possíveis para este termo:

– necessário para a nossa existência;

– para hoje;

– para o dia que virá;

– para o futuro.

As várias traduções usadas nas nossas bíblias (e seria bom verificar) refletem a dificuldade em ter certeza sobre o que significa o termo no contexto desta oração.  Muitos exegetas concluem, como São Jerônimo, que a palavra quer dizer “dá-nos hoje o nosso pão de amanhã”.

Aqui, “amanhã” significaria o “grande amanhã” da Parusia, da consumação final do Reino de Deus.  Assim estamos pedindo que nós possamos experimentar hoje o que pertence à plenitude do Reino.

Isso tem implicações muito concretas para a nossa vivência.  Pois jamais será possível experimentar a plenitude do Reino enquanto falta o pão material na mesa dos nossos irmãos e irmãs.  Quem faz este pedido se compromete com a luta por uma sociedade mais justa, mais fraterna, onde todos possam ter uma vida digna.

Quando Jesus e os seus discípulos faziam a refeição, era muito mais do que simplesmente tirar a fome.  Significava o banquete messiânico, desejado pelos profetas, onde todos teriam vida plena.  Quem reza esta petição, se compromete com a concretização duma sociedade onde “todos tenham a vida e a vida em abundância” (cf. Jo 10,10), coisa impossível sem o pão material nas mesas.

Não é possível participar do banquete eucarístico, sem este compromisso concreto com a construção dum mundo sem empobrecidos, onde todos terão “o pão nosso de cada dia”.

  1. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós queremos perdoar os nossos devedores”.

Um dos grandes dons da era escatológica é o perdão.  Já vimos em outros trechos como Jesus manifestava este dom gratuito do Pai. Aqui pedimos que nós possamos experimentar este grande dom, aqui e agora. No entanto, o trecho levanta a questão da relação entre o perdão de Deus e o nosso perdão.

A maneira que nós rezamos o “Pai Nosso” – “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” – pode dar a impressão que estamos pedindo que Deus nos perdoe na medida em que perdoemos os outros!  Se Deus vai nos perdoar conforme os critérios humanos, estamos em maus lençóis!!  Aqui é necessário que olhemos melhor o que significa “assim como”.

Quase todos os estudiosos estão de acordo que esta frase não deve ser entendida como uma comparação entre o perdão de Deus e o nosso. Diversas parábolas sugerem que o perdão de Deus precede o perdão humano (cf. Mt 18,23-25; Lc 7,41-47). O nosso perdão é consequência e resposta ao perdão de Deus.  Sendo perdoados, não temos desculpa para não perdoar!  Mas qual é então o papel do perdão humano? (cf. Mt 6,14s). É que o perdão de Deus só se torna real para mim quando eu o assumo na minha vida ao ponto de perdoar quem me ofendeu. O nosso perdão mútuo então é a prova de até onde temos assumido o perdão de Deus.  Devemos então lembrar três pontos:

– O perdão de Deus sempre precede o perdão humano;

– O perdão humano é reação ao perdão divino;

– O perdão divino só se torna eficaz para nós quando nós temos vontade de perdoar o outro.

Joaquim Jeremias explica a frase assim:

“Nós estamos prontos a repassar a outros o perdão que nós recebemos. Dá-nos, querido Pai, o dom da era da salvação, o teu perdão, para que, na força do perdão recebido, possamos perdoar os que têm nos ofendido”. (J. Jeremias, A Oração do Senhor).

E o grande exemplo desta realidade continua sendo a mulher “pecadora” de Lc 7, 36-50), cujo grande amor foi consequência do grande perdão recebido de Deus.

  1. “E não nos deixes sucumbir à tentação”

Este é o único pedido formulado em termos negativos.  Aqui não somente pedimos para não cair nas pequenas ou grandes tentações que nós enfrentamos no dia-a-dia, mas que não caiamos na Grande Tentação, de não acreditar na realidade da presença do Reino, de perder a fé na ação transformadora de Deus, de não acreditar mais na concretização da vontade de Deus. Este “sucumbir” não vem normalmente “de vez” – é um processo lento, que pode acontecer sem que nós demos conta.  É o perder do elán, da vibração com a causa do Reino, que reduz a religião a uma mera “cumprir tabela”, sem alegria, sem esperança, – em fim, uma frustração.  Este pedido ecoa uma mensagem e advertência clara dos evangelhos – a necessidade de vigilância!  Estamos na luta escatológica entre o bem e o mal, onde até Jesus foi tentado.  Aqui reconhecemos a nossa fraqueza, a nossa tendência para o desânimo, e pedimos a força de Deus para que não sucumbamos à Grande Tentação.

Assim a Oração do Senhor resume o projeto de vida dos seus seguidores e discípulos.  É uma oração que traz consequências bem concretas para o nosso relacionamento com os irmãos e com a sociedade. É uma oração que desinstala e desacomoda.  Pois nós estamos nos comprometendo com a construção diária do Reino, através do seguimento de Jesus.

A segunda parte do trecho de hoje insiste na necessidade de perseverança na oração.  Faz contraste (e não comparação!) entre Deus e o amigo humano.  Pois se o “amigo” só atende ao pedido para não ser amolado, Deus é bem diferente.  Ele dará o mais importante – o Espírito Santo, com todos os seus dons, àqueles que o pedirem!  Peçamos as coisas pequenas – mas importantes – necessárias para a nossa vivência diária, mas saibamos também pedir os grandes dons do Reino, o perdão, o pão da vida, a misericórdia sem limites, que Deus jamais negará!

 

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Para que nossa oração se torne VIDA e a vida se torne Oração

 

Marcelo Barros

 

O evangelho lido nesse domingo (17º comum do ano C) pelas comunidades (católicas, anglicanas, luteranas e de outras Igrejas históricas) nos conduz à continuidade da leitura de Lucas. Dessa vez, é novo momento ou dimensão da grande peregrinação de Jesus para a sua Páscoa em Jerusalém (Lc 11, 1 – 13). Ao situar esse diálogo entre Jesus e os discípulos no contexto da caminhada pascal para Jerusalém, na qual Jesus vai formando o seu grupo, o evangelho deixa claro que a oração faz parte essencial da missão. No capítulo 10, aprendemos que a missão comporta o ir de dois em dois às aldeias e povoados. Vimos que a missão consiste em testemunhar e anunciar que a realização do projeto divino no mundo (o reinado divino) está próximo de acontecer. Na parábola do samaritano, Jesus mostra que esse testemunho do reino começa e culmina na solidariedade como forma de viver e depois revela que a acolhida (ele foi acolhido por Marta e Maria) é essencial à missão. Agora o mesmo evangelho nos diz que, depois de verem Jesus em oração, os discípulos e discípulas que o acompanhavam lhe pedem uma coisa importante mas talvez a mais difícil que alguém pode pedir a outro: ensina-nos a orar.

Quem de nós não gostaria hoje mesmo de pedir a Jesus: ensina-me a orar. Certamente, hoje, a resposta de Jesus para nós seria muito diferente da que ele deu aos discípulos naquela ocasião. Ele os ensinou a orar a partir da cultura e do jeito de viver a fé deles. Para nós, hoje, a resposta que ele deu aos discípulos pode conter elementos que nos ajudem, mas ao pé da letra não nos serve muito. O Pai Nosso é uma oração que amamos e consideramos atual, mesmo se a usamos na versão dada por Mateus (mais longa e explícita). Mas, mesmo o Pai Nosso, será que compreendemos bem? DizemosPai nosso que estás nos céus. Que sentido tem hoje chamar Deus de Pai e afirmar que ele está nos céus? Que céus? O firmamento? Há quase 50 anos, quando Gargarin voltou de sua primeira viagem espacial declarou que não tinha encontrado Deus por lá. Jesus falou em céus no sentido do reino de Deus, então não é lá em cima nem é exatamente um local. Hoje, falamos de Abba, Paizinho para exprimir que, se Deus é Amor, precisamos libertá-lo e libertar esse modo de falar dele de qualquer ranço patriarcal.

Seja como for acolhemos e mantemos como tesouro de nossa vida a oração do Pai Nosso. Mas, e essa parábola de Jesus que compara a oração com a importunação de um amigo que acorda outro no meio da noite para atendê-lo ou ajuda-lo. E diz que se o amigo não quiser atender por amizade, acabará atendendo ao menos para se livrar do outro que não deixa de pedir e chamar. Deus é assim? Atende a gente para não se ver importunado?

A parábola não é sobre Deus. É sobre o valor de uma oração insistente. No final, ele conclui: Se vocês não dariam pedra a um filho que pede pão, quanto mais Deus… Ele nunca deixará de dar o Espírito Santo a quem o pedir… Então, Deus é um pai ou mãe cheio/a de ternura e a oração de acordo com a vontade divina é pedir o Espírito de Deus em nós…

A oração não é um problema de palavras.Nos tempos do tráfico de negros na África, muitos dos navios negreiros tinha um padre capelão que celebrava missa para que Deus protegesse o navio durante a travessia do Atlântico e assim os sequestradores pudessem chegar sãos e salvos e com sua carga salva para ser vendida e dar bom dinheiro… Atualmente, os exércitos continuam com capelães militares que abençoam homens e armas que partem para os combates…

No segundo turno da eleição presidencial (outubro de 2018), não poucos padres concluíram a missa daquele domingo pedindo a Deus a vitória da extrema direita e saindo da missa foram às ruas pedir votos para Bolsonaro. De que lado, Deus estava? Quantos não viram na vitória do ódio o sinal de que Deus atendeu suas orações?

Nesse domingo passado, em Belo Horizonte, a televisão mostrou uns 200 fieis católicos em frente à Igreja de Nossa Senhora de Lourdes em Belo Horizonte, rezando fervorosamente o terço como reparação à Nossa Senhora. Escolheram aquele lugar, próximos de onde um grupo de travestis iria apresentar sua peça teatral (Nossa Senhora dos Travestis) e o arcebispo (atual presidente da CNBB) proibiu e se juntou ao prefeito para cancelar o evento.

Será que a oração é isso? Como compreender a oração de dois times de futebol que entram em campo e ambos rezam para vencer? Deus tem alguma coisa a ver com isso? E no caso de ter, vai favorecer a quem?

Já desde os tempos do nazismo, o pastor Dietrich Bonhoeffer nos adverte contra a imagem de um Deus tapa-buraco de nossas necessidades. E portanto, é preciso nos libertar de uma concepção mágica da oração. No passado, pessoas piedosas falavam de “oração forte” e até poucos tempos católicos faziam “correntes de oração” (reze, tire 40 cópias e espalhe…).

No evangelho, Jesus ensinou: “Não pensem que Deus os escuta pela força de suas palavras. Quando orares, entra no quarto íntimo do teu coração e o Pai que te conhece totalmente te escutará” (Mt 6).

Se o problema da oração não é o seu conteúdo em termos de palavras e nem em si a atitude da pessoa que reza (se ora de joelhos ou em pé), qual então será? Para Jesus, certamente, é a raiz, ou seja, a matriz a partir da qual a oração é vivida. O problema fundamental é se a raiz ou a matriz da oração é o amor solidário, a compaixão e, portanto, a sintonia com o projeto de Deus para nós e para o mundo. Bonhoeffer explicava esse evangelho dizendo: “Deus nem sempre atende ao que pedimos, mas é sempre fiel às suas promessas”.

Então, o fundamental é nos colocarmos em sintonia com o projeto divino, chamar Deus de Pai com a consciência de sermos filhos/as e portanto irmãos/ãs uns dos outros e vivermos a oração como ato de amor e não como magia feita como despacho contra alguém ou algum grupo humano. Se a nossa oração for entrar em sintonia com o projeto divino e pedir o Espírito de Deus para sermos testemunhas do amor e da ternura divina no mundo, então, sim, nossa oração será sempre profecia porque, como disse Jesus, não se trata de dizer: Senhor, Senhor, mas de fazer a vontade do Pai…

 

 

 

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