Reencantar a Política: nossa missão

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Padre Nelito Dornelas – Assessor das CEBs-MG

O que é política?

A palavra política possui vários significados. Um deles é a politicagem. É quando falamos de política como forma de enganar as pessoas, de promessas que nunca se cumprem, do “jeitinho” de fazer com que as leis e os recursos públicos favoreçam ou beneficiem a indivíduos ou grupos específicos e não à comunidade, ao coletivo, ao bem comum. Quando as pessoas dizem que não gostam de política, elas estão rejeitando esta maneira de fazer política.

A Política a ser reencantada é aquela que se refere ao conjunto de ações que estão direta ou indiretamente ligadas à promoção do bem comum.

Essa Política interessa a todos, pois, queiramos ou não, ela irá interferir na vida dos cidadãos. E como vivemos em comunidade e em sociedade, somos responsáveis por tudo que ajude ou prejudique ao bem comum.

Já dizia Maquiavel que a política não leva ninguém ao céu, mas se não fosse a política, o mundo seria um inferno, pois tudo que temos é feito por decisões políticas. Portanto, a política sempre se refere ao modo como lidamos com o bem comum. Política tem sempre a ver com a sociedade e com a vida das pessoas, com os salários, com o preço do pão, com as passagens de ônibus, com as prestações da casa própria, com a escola, a segurança, o lazer. Nada do que é social está fora da política.

É a política que organiza o modo de como vivermos juntos, produzirmos e distribuirmos os bens e os serviços. Nesse sentido as Igrejas e as religiões também estão dentro da vida política de uma nação e são sujeitos políticos ativos.

Na conceituação de Leonardo Boff há dois jeitos de se fazer política. Com P maiúsculo e com p minúsculo. A Política social é com P maiúsculo e a política partidária é com p minúsculo.

Política Social com P maiúsculo

É tudo o que diz respeito ao bem comum da sociedade, é a participação das pessoas na vida social. A participação na associação de moradores, do movimento de moradia, do movimento sindical, no centro de defesa dos direitos humanos, nos movimentos dos atingidos pelas barragens e pela mineração significa fazer política social. Essa política visa o bem comum de todos ou de um grupo, cujos direitos estão sendo desrespeitados. Política social ou Política com P maiúsculo são o lugar privilegiado de promoção do bem comum.

Política partidária com p minúsculo

Significa a luta pelo poder de estado, para conquistar os governos municipais, estaduais e federais. Os partidos políticos existem em função de se chegar ao poder de estado, seja para mudá-lo, seja para exercê-lo assim como se encontra constituído, governar o estado que existe. O partido é parte e parcela da sociedade, não toda sociedade. Cada partido tem por trás interesses de grupos ou de classes que elaboram um projeto para toda a sociedade. Ao chegarem ao poder de estado, ao governo, vão comandar as políticas públicas conforme o seu programa e sua visão partidária dos problemas da sociedade.

Política e cidadania

Muita gente pensa que política só se exerce dentro dos partidos ou no exercício do direito de votar. Assim, seríamos “políticos” em certas épocas e circunstâncias. No ano de eleições participaríamos da política e ficaríamos livres dela nos próximos anos.

Não é bem assim. Nós somos políticos em tudo aquilo que fazemos ou deixamos de fazer. Porque sempre, em tudo, estamos ajudando ou prejudicando a comunidade e a sociedade. Nesse sentido, política é sinônimo de exercício da cidadania, de nossa qualidade de cidadãos.

Toda vez que fazemos valer nossos direitos ou respeitamos os direitos dos outros estamos fazendo política.

Até não fazer nada para modificar a situação de nossa comunidade, da sociedade, é uma atitude política. Significa que estamos contentes com as coisas como estão.

Todos que se interessam pela mudança de rumos na política brasileira deveriam se convencer de que todas as demais providências, tanto no campo da legislação eleitoral, quanto na formação dos eleitores e dos candidatos, serão em vão, se não houver um grande empenho na educação para a cidadania. Só quem for educado para ser cidadão na vida de cada dia poderá contribuir para uma renovação na vida política.

E essa educação para a cidadania se faz no decorrer de toda vida e em todas as instâncias educacionais: família, escola, Igreja e sociedade. No esquecimento disso está a raiz do fracasso de tudo que se tem feito para melhorar a vida política em nosso país.

Jesus e a Política

Para muita gente fé e religião são coisas apenas de foro íntimo que nada tem a ver com a vida social. Outros as reduzem a determinados atos, geralmente identificados com o culto religioso, sem nenhuma relação com outras atividades da vida.

Há quem justifique a separação entre fé e política a partir da expressão de Jesus: dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus!  (Mc 12,17). Esta é uma interpretação equivocada, pensar que Jesus quis desvincular sua prática e sua missão de qualquer engajamento político no sentido amplo da palavra.

Para início de conversa temos que exorcizar este texto do evangelho. No tempo de Jesus, o que pertencia a César na Palestina eram seu exército, seus interventores e sua moeda, na qual se podia ler: Tibério imperador, filho venerável do venerável Deus. A presença da moeda estrangeira garantia o pagamento dos tributos em dinheiro.

Segundo a teologia de Israel, a terra pertence a Deus e, por extensão, a todas as suas criaturas que nela vivem (Lv 25,23; Sl 24,1). As terras da Palestina não são de César e o povo de Israel também pertence a Deus (Ex 3,7.10; Jr 31,33; 32,38). É sua herança. O império romano não tinha legitimidade para dominar a terra de outros povos, muito menos para oprimir as pessoas.

Quando Jesus diz aos fariseus e herodianos: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, quer desmascarar os seus interlocutores por aceitarem a presença da moeda imperialista em seu território e serem coniventes ou omissos em relação à apropriação da terra e do povo de Israel que César estava fazendo naquele momento. Por outro lado, deixa claro que seu projeto é anti-imperialista e quer que a opressão dos césares por meio da presença de seu exército, de seus procuradores e de sua moeda volte para casa e deixe livres o povo e a terra.

Outro texto muito lembrado para dizer que Jesus não se envolvia com política, com o bem estar de seu povo, é João 18,36: meu Reino não é deste mundo. Uma tradução mais apropriada seria Meu Reino não procede deste mundo.

No Evangelho de João, quando Jesus fala “deste mundo”, “no mundo”, “pelo mundo” ou “do mundo”, ele se refere especialmente à estrutura de opressão do mundo de então, sob os romanos. Confira, por exemplo, João 15,18-19; 17,14-18! Portanto, ao dizer a Pilatos, o interventor romano na Judéia, meu Reino não procede deste mundo, Jesus quer lembrar-lhe que o Reino de Deus, que já começa nesta terra (Lc 11,20; 17,21), não é como o império opressor ou o reino de Herodes, mas é de promoção da vida dos mais pobres, dos doentes, dos promotores da paz, dos lutadores pela justiça (Mt 5,1-12).

Pode-se afirmar que Jesus tinha sim um projeto político muito claro, o fim da dominação dos impérios de ontem e de hoje, e a instauração, inclusive já nesta terra, de estruturas econômicas, sociais, políticas, culturais e religiosas que garantem vida plena para todas as pessoas (Jo 10,10).

A dimensão política da fé

A fé não é um “ato” ao lado de outros. Mas é uma “atitude” que engloba todos os atos, toda a pessoa, o sentimento, a inteligência, a vontade e as opções de vida. É uma experiência originária de encontro com o Deus vivo. Esse encontro muda a vida e a forma de ver todas as coisas. Pela atitude de fé vemos que tudo está ligado e religado a Deus, como Aquele Pai/Mãe que tudo criou, tudo acompanha e tudo atrai para que tudo possa viver em comunhão feliz uns com os outros, com toda a criação e com Ele já aqui neste mundo e plenamente na eternidade.

Neste sentido, a fé engloba também a política com P maiúsculo (política social) e com p minúsculo (política partidária). Sempre se pode perguntar: em que medida a política, seja social, seja partidária, é instrumento para a realização dos bens do Reino como a justiça, a solidariedade e a tolerância, em que medida a política cria as condições para as pessoas se abrirem à cooperação umas com as outras e não se entredevorarem pela competição e à comunhão com Deus.

A fé não fica apenas como experiência pessoal de encontro com Deus. Ela se traduz concretamente na vida. Ela é como uma bicicleta; possui duas rodas mediante as quais se torna fé concreta: a roda da religião e a roda da política. A roda da religião se concretiza pela contemplação, pela oração, pelas celebrações, pela leitura popular e orante da Bíblia, pelas romarias, pelos sacramentos, pelo culto. Há quem reduza a religião somente a essa roda. Ela possui uma segunda roda, a roda da política que é o seu lado mais prático, mais atante na comunidade e na sociedade.

A fé se expressa pela prática da justiça, da solidariedade, da denúncia das opressões, pelo protesto e pela prática da libertação. Política é sinônimo de ética. Temos que aprender a nos equilibrar em cima das duas rodas para poder andar corretamente.

A Bíblia considera a roda da política, ética, como mais importante que a roda da religião institucional, o culto (Mt 7,21-22; 9,13; 12,7; 21,28-31; 61 5,6; Tg 2,14). Sem a ética a fé fica vazia e inoperante. São as práticas e não as prédicas que contam para Deus. Não adianta dizer Senhor, Senhor e ficar na celebração; mais importante é fazer a vontade do Pai que é amor, misericórdia, justiça e perdão, coisas todas práticas, portanto, éticas (cf. Mt 7,21 ).

A dimensão política da fé mostra as suas perspectivas éticas. Por ética emendemos a dimensão de responsabilidade, à vontade de construir relações de participação e não de exclusão, tanto na vida cotidiana e familiar quanto na escola, nos movimentos sociais, nas comunidades cristãs, na sociedade e no poder público. As condições de vida e a exclusão de grandes maiorias são de natureza social e política, portanto, ética. Então a fé deve mostrar sua força de mobilização e de transformação neste campo social e político (Pb  28 e 90).

Papa Francisco e o compromisso cristão com a politica

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium o Papa Francisco nos convoca à responsabilidade com a política.

Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira.  Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Além disso, a dívida e os respectivos juros afastam os países das possibilidades viáveis da sua economia, e os cidadãos do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrupção ramificada e uma evasão fiscal egoísta, que assumiram dimensões mundiais. A ambição do poder e do ter não conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta (EG 56).

No discurso aos formadores de opinião, na cidade do Rio de Janeiro em 2013, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), o Papa Francisco apontou os seguintes desafios a serem assumidos pelo conjunto da sociedade:

  1. a vida nos cobra responsabilidade social que assumimos pela política. Por conseguinte precisamos reabilitar a política, que é uma das formas mais altas da caridade;
  2. a política deve evitar o elitismo da democracia representativa, muitas vezes fechada no mero equilíbrio de representação de interesses; deve incentivar cada vez mais e melhor a participação das pessoas com a finalidade de assegurar a todos dignidade, fraternidade e solidariedade;
  3. participação e diálogo entre as diversas riquezas culturais fazem crescer o país. A única maneira para fazer avançar a vida dos povos é o diálogo e a cultura do encontro. Nesse diálogo, todos têm algo de bom para dar, e todos podem receber em troca algo de bom. Esse diálogo exige humildade social, que abre mão de exigências hegemônicas culturais e sociais.
  4. as grandes tradições religiosas podem desempenhar um papel fundamental para a convivência harmoniosa de uma nação, já que a laicidade do Estado garante sua convivência pacífica.

E para finalizar, uma palavra de desafiante encorajamento.

Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. (EG 49).

 

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