Reconstruir a cidade, uma exigência da fé cristã

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Padre Nelito – Assessor das CEBs-MG

Aos 7 de março de 2016 a CNBB lançou o documento de estudos 109, sobre o solo urbano e a urgência da paz. Diante dos desastres naturais e sócio ambientais nestes tempos, bem como dos crimes acidentes provocados pelos rompimentos de barragens de rejeitos de minérios, este estudo torna-se indispensável para quem quer, à luz da fé, contribuir na construção de cidades sustentáveis. De início nos vem um pensamento do Papa Francisco sobre a criação divina: o solo, a água, as montanhas: tudo é carícia de Deus.

Na introdução do documento podemos ler estas sábias e inspiradoras palavras. Solo urbano! Solo, terra, habitação, relação, realização. Urbano, cidade, pertencente à urbe, cortês. Solo urbano é mais do que um pedaço de terra, pois é lugar de convivência, mesmo na sobrevivência.

O estudo e o debate a partir do solo urbano demonstram que as cidades não são e nunca devem ser consideradas apenas como mero espaço de circulação de pessoas e mercadorias, de construção de prédios e prestação de serviços. Há uma identificação das pessoas com o espaço em que vivem. E é a partir dessa identificação que o local passa a ser um lugar para gente. Lugar pressupõe identificação, e todos os que vivem na cidade, em boa medida, possuem uma relação de identificação com ela (Estudo da CNBB 109, n. 3).

Afirma o Papa Francisco na Encíclica Laudato Si’: muitas cidades são grandes estruturas que não funcionam, gastando energia e água em excesso. Há bairros que, embora construídos recentemente, apresentam-se congestionados e desordenados, sem espaços verdes suficientes. Não é conveniente para os habitantes deste planeta viver cada vez mais submersos de cimento, asfalto, vidro e metais, privados do contato físico com a natureza (44).

Há necessidade de tornar nossas cidades mais humanas, justas e acolhedoras. Será sempre mais acolhedora à medida que toda família tenha sua morada e todos possam usufruir do saneamento básico, uma necessidade básica.

Somos convidados ao estudo da questão urbana. É urgente um movimento que torne a cidade mais cortês.

O texto de estudo O solo urbano e a urgência da paz discuti sobre essa realidade de nossas cidades. São três passos, três olhares, na tentativa de iluminar e indicar caminhos: Um olhar sobre as questões urbanas (primeira parte); Solo urbano e moradia – princípios cristãos para julgar (segunda parte); Rumo à cidade de que precisamos (terceira parte).

Somos sempre, como discípulos e discipulas missionários e missionarias, convocados à fidelidade. Fidelidade à missão de guardar e cuidar da obra criada (cf. Estudo da CNBB 109, n. 130). Somos insistentemente convidados a cuidar dos espaços comuns, das estruturas urbanas para melhorar a percepção de pertença, de enraizamento, do sentimento de “estar em casa” na cidade. Ninguém se sinta marginalizado, um estranho, um “desabitado”, sem chão. Possamos juntos construir uma nova cidade como um “nós” (cf. LS, n. 151).

O documento dialoga com outro estudo publicado pela CNBB em 1982 – Propriedade e uso do solo urbano: situações, experiências e desafios pastorais – e propõe a retomada desta reflexão, dada a gravidade do uso do solo urbano na atual conjuntura. Tal situação exige uma palavra da Igreja no seu compromisso com Jesus Cristo, aquele que se fez solidário com todos os pobres e sofredores (cf. Lc 16s).

Dialoga também com as Diretrizes Gerais de Ação Evangelizadora (2019-2023), a qual aponta os quatro pilares da evangelização, sobretudo no mundo urbano: Palavra, Pão, Caridade e Missão.

Continua válida esta advertência:  Se Javé não construir a casa, em vão trabalham nela os construtores. Se Javé não guardar a cidade, em vão vigiam os guardas! (Sl 127,1)

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