“Os povos da Amazônia sabem o que querem, e sabem que a vida deles depende da vida da floresta”

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Entrevista com Daniel Seidel, membro da Repam, Professor, psicopedagogo aula DSI na ETP da Diocese de Uberlândia

Entrevistado por Magda Melo

Conhecendo sobre o sínodo da Amazônia com Daniel Seidel

Esse processo do sínodo é para Amazônia novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia integral,tem sido um momento de Kairós para toda a igreja, seja a Igreja do Brasil, a Igreja Universal e também a igreja presente na Amazônia,porque ele parte de um pedido que foi feito pelos próprios bispos ainda em dezembro de 2016,que foi atendido pelo Papa Francisco em outubro de 2017, quando ele chama para o sínodo.

O Sínodo não é um processo apenas oficial que começou no dia 6 de outubro até o dia 27.Mas ele já teve seu início desde janeiro de 2018, quando em Porto Maldonado o Papa Francisco fez um encontro com os povos indígenas e de novo ele marcou método, começou pela escuta e naquele momento foi das mulheres indígenas e lá mesmo ele afirmava quão ameaçados,ou nunca tiveram tão ameaçados os povos indígenas da Amazônia e a partir daí de periferia, de quintal do mundo, a Amazônia começou a ganhar relevância e se tornou o centro.

Eu consegui participar de todas as escutas a partir do documento preparatório que foi lançadoem junho de 2018 e de junho até janeiro, nos tivemos escutas dos povos indígenas, das comunidades eclesiais de base, das paróquias,dos padres, dos religiosos e religiosas, dos cristãos leigos e leigas por meio dos conselhos, dos movimentos populares.

E tudo isso, em fevereiro desse ano, em Brasília, construímos e tomei parte da síntese nacional e da síntese Continental para que enviássemos até o dia 28 de fevereiro todo esse material de escuta para Roma, para o Vaticano e no mês de junho desse ano de 2019, nós tivemos a grata surpresa de receber o instrumento de trabalho que esta sendo o roteiro para o debate, instrumento utilizado durante o sínodo.

Tudo isso tocando nas questões concretas dos projetos que estão em disputa na Amazônia, inclusive nós, enfrentamos críticas muito severas e duras do atual governo federal do Brasil achando que o Sínodo era contra o governo federal do Brasil.Na verdade o sínodo, como eu disse foi proposto muito antes, por conta da situação que enfrentavam os povos da Amazônia naquele momento, e, infelizmente como existiam planos secretos do Governo Federal para quase que devastar a  Amazônia, tornando um território ocupado na perspectiva do Sul, Sudeste e não a perspectiva a partir da Amazônia é que a gente começou a compreender essa irritação do governo federal, mas o que nós fizemos lá sobretudo, foi justamente fazer escuta qualificada dos povos.

Os povos sabem o que querem, e sabem que a vida deles depende da vida da floresta e tudo está interligado e nós aqui que somos do sul, sudeste, centro-oeste, também dependemos dos rios voadores, das chuvas que são oriundas lá da Amazônia.

Então, trazer essa compreensão para a Igreja do Brasil tem sido um momento muito rico, muito desafiador porque nós estávamos muito bem instalados nos nossos próprios espaços de convivência, espaço de igreja.

E o Papa Francisco o tempo todo, seja com a alegria do Evangelho, exortaçãoque foi publicada em 2013,seja pela Laudato Si em maio de 2015,ele sempre está nos interpelando para uma igreja em saída, de forma que nós possamos assumir essa causa de defesa da vida dos povos, que está muito interligada com a preservação do ambiente da Amazônia não para que seja um preservacionismo, só preservar por preservar, não, é uma interação produtiva, criativa e ancestral que esses povos têm com a Amazônia, que preservam a floresta em pé, e, ao mesmo tempo dela tiram toda sua riqueza, e nessa interação, aprendem e temos muito apreendido com isso também.

E o que nós queremos é uma igreja que celebre a sua liturgia inculturada na Amazônia e principalmente que a igreja seja mãe, irmã, foi a grande escuta que nós ouvimos uma igreja próxima dos povos, que cuida dos povos, do bioma e ao mesmo tempo que se coloca ao lado, lado a lado, nas suas lutas, nas suas demandas, para que existam políticas públicas adaptadas a essa realidade da Amazônia e que preserve o bioma como centro da vida.

Existem muita economia vinculada,muita gente tem ideia de que a Amazônia é lugar que o povo vive ocioso, coisa nenhuma, o povo vive com uma dignidade muito própria daqueles povos e dali eles tiram a sua riqueza, a sua cultura, e, principalmente a sua economia.

É uma economia que muitas vezes não passa pelos papéis oficiais, por nota fiscal, essa coisa toda, mas uma economia que sustenta a vida daqueles povos e por isso nós nos colocamos aliados aos povos tradicionais principalmente aos povos indígenas, mas também aos quilombolas,aos ribeirinhos, as quebradeiras de coco e tantas mulheres e homens que lá lutam para que nós possamos nos contrapor a uma lógica daquilo que Antônia Melo do Xingu Vivo para sempre chama de projetos Monstros, ou seja, que vão lá para usufruir, para sacar, para tirar e para roubar a riqueza dos povos e ao mesmo tempo deixar só resíduo, destruição, veneno e morte seja coma monocultura, seja com a mineração legal e ilegal, seja ao mesmo tempo com a exploração da madeira, seja ao mesmo tempo com gado que realmente é uma coisa insana na Amazônia, o tanto de matas que são transformadas em pastagens que ficam dois ou três anos produtivas, depois já não tem mais porque é apenas uma exploração degradante da natureza.

E tudo isso deve nos levar também a pensar esses modelos de energia elétrica. eu vejo andando pelos aeroportos do país a norte energia vender como se fosse energia limpa, mas na verdade essa energia destruiu a vida de mais de 80 mil pessoas em Altamira, e eu não conheço de ouvir falar ou dos livros, eu conheço por estar presente como missão na Amazônia na prelazia do Xingu e vejo lá tanto sofrimento de comunidades que foram deslocados dos lugares onde tinham uma economia da vida e jogadas no Roogs, no meio de lugares isolados e destruindo as relações de irmandade, de compradesco que existia e ao mesmo tempo sendo misturados e sem possibilidade econômica de se locomover.

O transporte público ainda é muito precário, e tudo isso são consequências de projetos de gente que não é da Amazônia e que pensa a partir dessa usufruição das riquezas que lá tem, mas ao mesmo tempo deixa destruição e morte para aquele povo.

Então, o sínodo se coloca como um espaço de escuta desses povos para que essa voz possa repercutir em nível Internacional e esse incômodo daqueles que são os donos do dinheiro, os donos do poder político e econômico no Brasil, que não querem que os povos tenham novos aliados para garantir o seu modo de vida e a sua existência porque isso sim, preserva a vida que temos aqui,uma vida saudável, a possibilidade de uma vida digna no restante do nosso país.

 

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