O discurso trinitário sobre Deus – um colóquio preliminar. Nelito Dornelas

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Nelito Dornelas

Quando ouvimos a palavra Trindade, imediatamente a associamos a um mistério insondável, que faz parte de nossa vida, mas ao qual temos difícil acesso. Explicaram-nos que nosso Deus é Trindade, superando toda a solidão e todo isolamento. Que a Trindade se refere à comunhão divina entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, uma comunhão muito bonita e perfeita à qual temos que imitar em nossos diferentes relacionamentos.

Hoje, tal “imitação” parece tornar-se cada vez mais difícil e incompreensível, pois essa comunhão parece acontecer muito longe de nós, distante de nossa carne, de nossas preocupações e limites e, sobretudo, é comunhão entre “pessoas” espirituais, perfeitas, enfim, é uma comunhão divina.

Por isso, para muitas pessoas, a discussão sobre a Trindade é desprovido de interesse. Faz parte daquelas relíquias das quais ouvimos falar, mas que se articulam pouco com a vida cotidiana. Talvez ainda sirva para as pessoas religiosas que têm as necessidades básicas garantidas e que podem se dar ao luxo de pensar nessas coisas. O mundo delas pode comportar essa busca de perfeição e os discursos que falam de mistérios insondáveis e de coisas de “outro mundo”. Como bem classificou Karl Marx. Para ele, a sociedade é composta por duas categorias de pessoas: as que vivem no reino da necessidade e as que vivem no reino da liberdade. Para as pessoas que vivem no reino da necessidade, que importância tem se Deus é Trindade ou não?

Pensar a Trindade seria algo supérfluo, algo que nem merece ser refletido diante dos clamores gritantes de tantas pessoas ameaçadas pela fome, pelas doenças, pelo desemprego, pelas guerras, pela violência, pela falta de sentido para a vida. Trindade nada tem a ver com o abandono de menores, com a falta de terra, com a opressão das mulheres, com a exclusão dos indígenas e dos negros, com o extermínio dos jovens e das crianças, com os presidiários, os migrantes e todas as vitimas de um sistema excludente.

Em certo sentido, as pessoas que falam da falta de interesse em refletirmos sobre a Trindade têm razão, sobretudo quando nos deparamos com discursos tradicionalistas herméticos e tão distantes de nosso cotidiano, discursos que não ajudam nem a sobreviver e nem a tecer uma espiritualidade que sustente e anime nossa existência. São discursos nascidos em outras épocas e que, sem dúvida, refletem as questões e as tentativas de respostas adequadas a outras épocas e contextos.

Apesar das dificuldades em relação à compreensão tradicional da Trindade, também encontramos pessoas contentes e tranquilas com as coisas da religião que lhes foi transmitida e, temem até fazer perguntas críticas à sua própria fé, para não terem o trabalho de mexer e arrumar de novo e sempre de novo sua casa interior.  Essas pessoas apegam-se a uma prática religiosa e a tratam como um absoluto, sem refletir sobre as mudanças históricas e as necessárias atualizações na própria expressão de sua fé. Frequentemente identificam o essencial da fé cristã com as expressões culturais/religiosas que nos foram legadas.

Sei que essas pessoas terão muita dificuldade de acolher uma reflexão diferente. Por isso, em primeiro lugar, não é para elas esta reflexão, mas para os sedentos de uma nova compreensão do mundo, da humanidade, das relações interpessoais e de poder, da história, da Igreja e dos valores evangélicos. Busco, juntamente com as pessoas que vivem certo mal-estar com as coisas da religião e da própria Igreja, uma nova espiritualidade mais ajustada à situação atual da humanidade, mais afinada com as perguntas que formulam e as situações concretas do mundo em que vivemos.

Convido-os a ousar pensar, sobretudo neste momento decisivo de nossa história, momento tão cheio de perguntas difíceis de serem respondidas; momento de crise das instituições, momento em que a própria sobrevivência da vida dos seres humanos no planeta está em crise.

Em termos bastante resumidos e práticos, quero mostrar a necessidade de recuperar em nossa reflexão dimensões mais globais da vida, que se refere à própria dignidade de todos os seres e da humanidade como um todo. Como o tema que me proposto refere-se à Trindade e à Igreja, limitar-me-ei nestes dois aspectos, acentuando mais o aspecto eclesial.

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