O desafio contínuo de trabalhar a humanização uns dos outros

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O processo de humanização é tarefa coletiva, contínua e sempre inconclusa. A humanização não é uma conquista definitiva, mas é um dinamismo que se concretiza em todos os dias nas vivências e processos educativos. O desafio de uma sociedade é manter vivo, de geração em geração, este complexo dinamismo de humanização, e de forma criativa, dialogal e significativa na vida de cada um de seus membros.

– Poxa vida, você não tem coração não?

Ao se dirigir de forma veemente ao outro: – Poxa vida, você não tem coração não?, quando este demonstra frieza ou indiferença ante situações graves, perversas, violentas e/ou desumanas, no fundo, é bem mais que um mero protesto situado. Trata-se de um grito ético primal, de certa forma um pedido de socorro mesmo, pois o que se deseja ardentemente é que este apelo ético chegue e encontre acolhida no mais profundo da pessoa, a provoque a sensibilidade e impulsione um radical processo de mudança de postura.

Quando deixamos de acreditar que, no fundo de cada ser humano, há uma chama inapagável e indestrutível, que lhe interpela a concretizar mudanças em direção a uma adesão vital decisiva e determinada à bondade, à generosidade, à fraternidade e à justiça social, há consequências graves, pois…

  • Deixamos de acreditar, de apostar, de investir as melhores energias em processos educativos e de perseverar, resilientes, na luta contra as forças de morte para que, em futuro próximo, outra sociedade seja, de fato, possível;
  • Deixamos de crer na sociedade futura fundada na justiça, na educação para o cuidado, o compromisso e a corresponsabilidade de todos com a manutenção do pacto social que inclui a todos, homens e mulheres, na mesa da dignidade humana;
  • Deixamos de participar empenhados nas lutas presentes na caminhada e que, na busca diária de concretizar a utopia humanista, se alegra e celebra, a cada passo, os avanços, ainda que pequenos, conquistados na construção coletiva e sólida da paz.

O “poxa vida”, tão usado em nossa linguagem coloquial, é uma interjeição recorrente, geralmente, com o objetivo de expressar algum sentimento ou ideia de surpresa, um susto, um desapontamento, uma decepção, uma tristeza… Mas também pode ser algum sentimento ou ideia de admiração, de encanto, um deslumbramento, uma admiração, uma alegria. Tudo depende do contexto em que se dá a sua utilização. No entanto, o importante aqui, nesta reflexão, mais do que uma compreensão adequada do uso da expressão “poxa vida” e de sua interpretação contextual, é o como ajudar a empreender a urgente passagem, em nosso tempo, do protesto ao despertar para um compromisso com a mudança de postura e do agir das pessoas em nossa sociedade tão marcada pela incapacidade de diálogo e de compartilhamento de utopias coletivas.

Como passar do mero protesto do “poxa vida” ao despertar das sombras do pessimismo antropológico e nos mobilizar para ações afirmativas transformadoras?

Estamos começando o mês de maio de 2021, ontem submergidos pelo doloroso contexto de milhares de famílias enlutadas pela dor das perdas nesta longa pandemia de COVID-19 agravada pela irresponsabilidade sociopolítica de muitos, celebramos um “1º de maio” com forte tendência de continuidade no crescimento do desemprego, do sub-emprego, da miséria e da fome… Ouve-se um grande clamor das/os oprimidas/os por um urgente pacto em defesa da vida.

Como potencializar o encorajamento dos diversos atores sociais? Como não claudicar diante das sombras paralisantes do pessimismo antropológico, se já ultrapassamos o trágico marco de mais de 400 mil vidas interrompidas pelo vírus e, sobretudo, pelo agravamento impulsionado pela atual necropolítica negacionista? Esta, além de não se empenhar devidamente para garantir as necessárias políticas públicas de defesa da vida (bom funcionamento do SUS, isolamento social, uso de máscara, álcool em gel, lockdown, auxílio emergencial, parcerias, quebra de patentes, vacina para todos…), tem estimulado, talvez por representar os interesses das classes economicamente dominantes e socialmente exploradoras, a população a assumir posturas contrárias às orientações científicas básicas de cuidado e proteção, da Vigilância Sanitária e dos órgãos cientificamente competentes, em nível nacional e internacional. E como se tudo isso já não fosse suficiente para um grande basta, vem impulsionando, depois de tudo o que vivenciamos, projetos contrários a qualquer bom senso, tais como o de estimular uma abertura irresponsável do comércio, diminuição drástica do auxílio emergencial; cortar nos orçamentos e promover o sucateamento dos órgãos de vigilância ambiental e de proteção aos povos originários; perseguir de forma cada vez mais aberta aos que fazem críticas ao governo; vetar o projeto que previa a garantia de acesso dos mais pobres a uma internet de qualidade; cortar os orçamentos e os fomentos para pesquisa científica; incentivar a volta do funcionamento físico das escolas sem a garantia da vacinação prévia dos envolvidos diretamente no sistema escolar: estudantes, professoras/es e funcionárias/os.

Sabemos que a mudança de mentalidade e a passagem do pessimismo ao otimismo, esperançado e mobilizador, é tarefa exigente e com processos lentos, mais ainda quando…

  • Estamos cientes de que muitos se encontram profundamente desalentados, desanimados e decepcionados com os rumos da nação;
  • A capacidade de empatia e de compaixão com os que sofrem, com os mais vulneráveis, e de indignação ética diante das injustiças, encontra-se enfraquecida e alquebrada;
  • A sociedade está dividida por pensamentos ideologicamente extremistas que inviabilizam o diálogo e a busca coletiva de soluções para os desafios e urgências.

A mudança de mentes e o afloramento da chama da esperança mobilizadora dependem em grande medida do investimento em um contínuo e infindo processo de formação da consciência crítica e autocrítica, mas isso também não basta. Importa discernir, descobrir e apostar em vias que dão acesso a interioridade humana, que permitem aí trabalhar o turbilhão dos sentimentos quase sempre confusos e que, sobretudo, se avivem a chama interior da bondade e da generosidade humanas, a que nos referimos no início desta reflexão.

Quais as vias conhecidas de acesso à interioridade humana que neste momento sombrio podem nos ajudar?

Oser humano é bem mais que a sua racionalidade. Quando contemplamos os dinamismos presentes nas individualidades e o entrelaçamento destas na convivência no seio das famílias, das escolas, dos ambientes de trabalho, dos diversos grupos, nas redes sociais… Nos damos conta e percebemos a complexidade humana ou o alcance da afirmação de que a pessoa é “bem mais” que a pura racionalidade.

Não é nosso objetivo aqui evocar as preciosas contribuições da Antropologia, da Filosofia, da Psicologia, da Sociologia, da Teologia e demais ciências humanas e de abordagens outras resultantes da importante e necessária perspectiva multi-inter-transdisciplinar. Foge aos limites desta reflexão.

Aqui quero simplesmente chamar a atenção para as experiências suscitadas pela religião e pela arte que trabalham de forma singular nossas dimensões “não racionais”. Creio que nesta empreitada coletiva, ante a responsabilidade de responder às urgências de nosso tempo, é decisivo levar em conta o “não racional” ou, sem querer a isso resumir, ao simbólico. Fui provocado concretizar estas reflexões pelo clipe de uma música do grande cantor e compositor Chico César, revisitada hoje por causa de uma mensagem do amigo dom João Justino, arcebispo de Montes Claros:

Penso que às vezes nos esquecemos que a política, ferramenta legítima de exercício do poder coletivo, como também a economia, a ecologia, a família, a sexualidade, a sociedade, enfim, a cultura, em grande medida, não é impulsionada meramente por nossa racionalidade.

Como seres humanos, simultaneamente vulneráveis às influências do simbólico e do diabólico, do que une e do que divide, das luzes do amor e das sombras do ódio, percebi com lucidez que os impactos e impulsos que emergem das experiências provocadas pela religião e pela arte precisam ser refletidas e seus cicerones imediatamente se darem conta e assumirem maior senso de responsabilidade no que fazem.

As religiões quase sempre se mostram especializadas – tanto quanto ou mais que a educação, por tudo que significam e conseguem concretizar – em penetrar paulatinamente na interioridade humana dos seus fiéis e, desde aí, provocar sentimentos, crenças e convicções, trabalhar o imaginário e o processo de internalização de princípios e valores, mudanças transformadoras, ao fazer refletir, de modo singular, sobre o sentido da vida.

As artes igualmente exercem grande poder não racional sobre as pessoas. De forma semelhante, mas diferente da religião, cada ramo da arte e cada artista a seu modo – o cinema, a dança, a escultura, o grafite, a literatura, a música, a pintura, o teatro… – suscita e canaliza sentimentos profundos, afetam as pessoas e trabalham o imaginário, fazem a diferença em posicionamentos, mobilizam em determinada direção.

Mais que as próprias religiões e as artes em si, os grandes meios de comunicação e as mídias digitais, com suas tecnologias cada vez mais refinadas e potentes redes sociais, se observarmos com atenção, têm sistematicamente se apropriado e lançado mão desses mecanismos de poder não racionais para seduzir, inculcar, induzir, controlar e manipular os usuários, com ampla capilaridade, na direção de seus interesses quase sempre nada republicanos ou comprometidos com o bem comum.

Com essa reflexão incipiente, quero apenas chamar a atenção para a importância de tomarmos consciência da dimensão sociopolítica não racional presente na arte, na religião e nas mídias digitais. E, consequentemente, enfatizar sobre o decisivo papel e as responsabilidades éticas que líderes religiosos, artistas e comunicadores devem ter consciência e, mais do que nunca, eticamente assumir neste complexo momento de nossa história. Faz toda a diferença quando se colocam ao lado das classes pobres e seus movimentos populares de luta pela justiça ou quando se colocam a serviço dos interesses das classes dominantes. Por tudo isso, tais escolhas não devem ser eticamente inocentes.

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