Instrumentalização entre religião e política (6ª SSB)

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“Para o sistema capitalista neoliberal não há possibilidade de democracia e nem soberania ou

autodeterminação dos povos”. Afirma a  secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs

do Brasil (CONIC), pastora Romi Becke, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB),

no artigo em que reflete sobre a instrumentalização entre religião e política.

Charge: Carlos Fatuff

E eles pediram um reiinstrumentalização entre Religiãoe política

“Este será o direito do rei que reinará sobre vós. Ele convocará os vossos filhos e os encarregará de

seus carros de guerra e de sua cavalaria…e os fará lavrar a terra dele e ceifar a sua seara, fabricar as

suas armas de guerra e as peças de seus carros….Tomará os vossos campos, as vossas vinhas, os vossos

melhores olivais…Exigirá o dízimo dos vossos rebanhos, e vós mesmos vos tornareis seus servos…”

(1 Sm 8.11-17)

 

A 6ª Semana Social Brasileira (6ª SSB) será realizada em um dos momentos mais complexos e tensos

da história recente do Brasil. Os temas estruturantes que serão refletidos durante a 6ª SSB estão

colocados em xeque, em especial, a soberania, a economia e a democracia. Estas três dimensões são

fundamentais para a alcançarmos os direitos de acesso à Terra, ao Teto e ao Trabalho.

É impossível evitar a pergunta se daqui a alguns meses as profecias e as reivindicações por soberania,

democracia e uma economia voltada ao bem comum ainda serão possíveis.

A cada dia cresce a máxima de Mateus 25. 29-30: “Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em

abundância; mas ao que não tem, até o que tem será tirado”.

Para o sistema capitalista neoliberal não há possibilidade de democracia e nem soberania ou autodeter-

minação dos povos.

O final do século XX e o século XXI tem nos ensinado que o neoliberalismo sugou a essência de muitas

das elaborações civilizatórias da humanidade, entre elas, da democracia e da própria religião.

A tensão entre Estado e poder religioso não é novidade. Na tradição judaico-cristã, esta tensão aparece

na história do povo hebreu quando reivindicou a mudança do sistema tribal para o reinado.

Os versículos 11 e 17 de I Sm 8, são bastante explícitos em relação às consequências desta opção:

escravização, perda da liberdade, filhos absorvidos para a guerra, altos impostos e desigualdade.

A relação instrumentalizada entre religião e política será sempre uma relação que distorce o sentido

da fé e que transmuta a benevolência que emana da fé religiosa em um poder nada benevolente.

O que fundamenta esta instrumentalização é o poder pelo poder. É uma aliança idolatra, porque se

coloca como poder absoluto e legítimo para dominar a vida das pessoas. Esta relação instrumentalizada

não autoriza a divergência, nem a diversidade e, muito menos, as profecias.

Nossa laicidade sempre foi frágil. O cristianismo, ao longo da nossa história, foi instrumentalizado para

realizar os desejos coloniais e capitalistas.

Foi esta relação distorcida que argumentou a favor da meritocracia para explicar as desigualdades

sociais: “se você não tem Terra, Teto ou Trabalho é porque não está se esforçando o suficiente”.

Esforça-te e Deus proverá!”.

Nos últimos anos, a relação entre religião e política tornou-se mais complexa. O que temos hoje no

Brasil é uma “teopolítica neocolonial” (LIONÇO, 2019), que reivindica o direito à grilagem de terras,

o direito à conversão dos povos indígenas e à exploração de garimpos. O fundamentalismo religioso

tornou-se política de Estado.

É a instrumentalização da religião pelo poder político que legitima e justifica a morte necessária de

alguns para que outros concentrem cada vez mais riquezas e poder. Esta instrumentalização é a

necropolítica em forma de homilia e liturgia.

A 6ª Semana Social Brasileira tem como principal inspiração e fundamentação a fé em Jesus Cristo.

Apesar de ser um espaço plural, que reúne, a partir desta fé, pessoas de diferentes tradições religiosas

e pessoas não religiosas é a partir da fé que nos encontramos para fortalecer a unidade e o

comprometimento com a luta por justiça, materializada na divisão radical das riquezas, na justiça

socioambiental, na radicalidade da unidade na diversidade.

Na 6ª Semana Social Brasileira afirmamos a dimensão política da fé por confrontar relações de poder

e exclusão. No entanto, é uma fé política não instrumentalizada, porque não tutela os movimentos

sociais para impor uma vontade e uma verdade absolutas. Não é instrumentalizada porque há espaço

para a diversidade de opiniões e a abertura para os questionamentos e críticas necessárias.

Um desafio é compreender que a resposta religiosa jamais pode ser a única e nem a última resposta.

Não somos portadores e portadoras da verdade e nem de salvação. Nossa participação política deveria

alicerçar-se na autocrítica e na consciência de que sempre que a fé religiosa se transforma na verdade

última, utilizando-se de recursos e poderes humanos, ela se torna instrumento de opressão e

não libertação.

 

Perguntas:

·         Quais os desafios a serem enfrentados para libertar a fé religiosa do jugo do capitalismo?

·         A experiência religiosa pode ser um caminho para o aprofundamento da democracia,

da transformação da economia de mercado para uma economia distributiva e para a

soberania dos povos. No entanto, quais os cuidados necessários para que a experiência

religiosa não se transforme em instrumento de opressão?

Referências:

LIONÇO, Tatiana. A Tecnologia da Crueldade na Teopolitica Neocolonial Bolsonarista. In.

https://www.justificando.com/2020/04/17/a-tecnologia-da-crueldade-na-teopolitica-neocolonial-bolsonarista/.

STRECK, Wolfgang. Tempo Comprado. Conjuntura Actual Ed. Coimbra, 2013. Livro eletrônico.

 

Acesse aqui: https://bit.ly/33OKEWa

Alessandra Miranda

Secretaria Executiva 6ª Semana Social Brasileira.

Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

 

 

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