As Diretrizes Gerais e a ação sócio transformadora da Igreja no Brasil

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Padre Nelito – Assessor das CEBs-MG

 A grande novidade na prática evangelizadora da Igreja no Brasil foi a elaboração do Plano de Emergência para o triênio de 1962 a 1965, construído durante as sessões do Concílio Ecumênico vaticano II, em atendimento a um pedido pessoal do Papa São João XXIII. Este Plano contribuiu enormemente para a recepção do Concílio em nosso país que possui dimensões continentais.

Do Plano de Emergência surgiu o Plano de Pastoral de Conjunto (PPC), primeira aplicação da técnica e da pedagogia do planejamento à pastoral. À ocasião, a CNBB já havia adquirido uma experiência inicial e um grupo de assessores capazes de elaborar um verdadeiro plano de pastoral. Ele contava com um objetivo e algumas diretrizes gerais, além de programas de ação a ser executados em cinco anos.

A primeira grande avaliação em 1970 mostrou os acertos e as inadequações do PPC, principalmente a impossibilidade de definir um plano concreto para as dioceses. Foi então decidido distinguir Diretrizes e Planos. As Diretrizes valem para quatro anos e são da Igreja no Brasil em todos os níveis. Os planos são diversos, conforme os níveis: nacional, regional e local, de igreja particular. A partir de 1971 as Diretrizes passaram a ser definidas para a vigência de quatro anos, avaliadas em Assembleia Geral da CNBB, adaptadas, renovadas e atualizadas diante de cada contexto sócio cultural e eclesial.

Por ocasião de preparação para o Jubileu do ano 2000, as Diretrizes (1995-1998) deixaram de ser de ação pastoral e passaram a ser diretrizes da ação evangelizadora, expressando a consciência de que diante do rápido processo de mudança na sociedade, as igrejas são desafiadas, muito mais, à sua missão evangelizadora, para fora, do que apenas com o cuidado pastoral.

O estudo das Diretrizes Gerais é o lugar por excelência para compreendermos a caminhada pastoral e evangelizadora da Igreja no Brasil nos últimos cinquenta anos.

A palavra evangelizar está presente em todos os objetivos das Diretrizes, como forma de incorporar as resoluções das Conferências Episcopais do CELAM, desde Medellín (1968) e dos grandes documentos pontifícios. Outros dois elementos importantes são a opção pelos pobres, a formação de comunidades eclesiais e a atuação na sociedade.

O quadro de referência das Diretrizes sempre foram as seis dimensões da evangelização: comunitária participativa, bíblico catequética, litúrgica, sócio transformadora, ecumênica e missionária. Posteriormente foram traduzidas nas quatro exigências da ação evangelizadora: serviço, diálogo, anúncio, testemunho de comunhão, com atenção à enculturação da fé.

As Diretrizes, revisadas à luz da Evangelii Gaudium, ratificam as cinco urgências na evangelização: uma Igreja em estado permanente de missão, casa de iniciação à vida cristã, lugar de animação bíblica da vida e da pastoral, comunidade de comunidades e a serviço da vida plena para todos. Sua espinha dorsal é: fazer missionário cada batizado e toda comunidade eclesial através de uma conversão pessoal, pastoral e ecológica, que se traduza na superação de uma pastoral de conservação e na ruptura com estruturas caducas, que não respondam mais aos desafios enfrentados pela evangelização, num mundo marcado por mudanças rápidas e de alcance global.

As Diretrizes reafirmam a eclesiologia que nasce do Vaticano II, quando lembram a necessidade de toda evangelização partir de Jesus Cristo que é a “fonte de tudo o que a Igreja é e de tudo o que ela crê”, sendo o Reino de Deus sua grande meta. Mostram, ainda, que a Igreja é o lugar do encontro com Jesus Cristo, princípio de toda conversão que leva ao discipulado missionário. Ressaltam as duas atitudes que distinguem o discípulo missionário: a alteridade e a gratuidade. A primeira fundamenta-se na encarnação de Jesus Cristo que faz do outro irmão e irmã. A segunda tem como base a páscoa de Cristo que se imola por nós, unicamente porque é bom e nos ama. Finalmente, recordam que a Igreja existe para evangelizar, por isso deve ser uma Igreja “em saída” que, na vivência e prática da misericórdia, cumpre sua missão com “prudência e audácia, coragem e ousadia”, como pede o Papa Francisco.

As cinco urgências na evangelização tentam responder ao contexto e à realidade em que se encontra a Igreja. Elas se constituem numa espécie de itinerário de presença e atuação da Igreja no mundo e proporcionam às Igrejas particulares a elaboração de um planejamento pastoral que torna eficaz seu trabalho evangelizador. São como uma engrenagem e devem ser trabalhadas de forma transversal para evitar uma evangelização incompleta e ineficiente. Uma das tarefas das dioceses é descobrir como estas urgências estão sendo respondidas.

As Diretrizes para o quadriênio 2019 – 2023

Objetivo geral da Igreja no Brasil

EVANGELIZAR No Brasil cada vez mais urbano, pelo anúncio da Palavra de Deus, formando discípulos e discípulas de Jesus Cristo, em comunidades eclesiais missionárias, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, cuidando da Casa Comum e testemunhando o Reino de Deus rumo à plenitude.

As (Arque) Dioceses do Brasil estão em processo de avaliação e de atualização de seus planos de evangelização para o quadriênio 2019-2023. As referências para essa avaliação são a realidade de cada Igreja particular e as Diretrizes Gerais de Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil.

Este processo avaliativo e de planejamento foi assim expresso pelos bispos da América Latina em Puebla: “A ação pastoral planejada é a resposta específica, consciente e intencional às exigências da evangelização. Deverá realizar-se num processo de participação em todos os níveis da comunidade e pessoas interessadas, educando-as numa metodologia de análise da realidade, para depois refletir sobre essa realidade do ponto de vista do evangelho e optar pelos objetivos e meios mais aptos e fazer deles um uso mais racional na ação evangelizadora” (Puebla 1307).

Na exortação apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco afirma que “cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização, e seria inapropriado pensar em um projeto de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto que o resto do Povo fiel seria apenas receptor das suas ações”.

As atuais Diretrizes reassumiram as cinco urgências da evangelização que agora devem ser sustentadas por quatro pilares: Pilar Palavra para sustentar a Iniciação à Vida Cristã e Animação Bíblica;  Pilar do Pão para sustentar a liturgia e a espiritualidade; Pilar da Caridade para sustentar o Serviço à vida plena; Pilar da Ação Missionária para sustentar A Igreja em estado permanente de missão.

Tomando como exemplo a imagem da casa, entendida como lugar de proximidade das pessoas, de vivência e de convivência, mesmo para os que têm a rua como casa, a Igreja em saída quer ser esta casa de portas abertas e lugar de encontro.

A casa indica a proximidade relacional entre as pessoas que nela convivem, bem como a necessidade da Igreja fazer-se cada vez mais presente nos locais onde as pessoas estão, seja onde for.

Essa casa é a comunidade eclesial missionária. Suas portas estão continuamente abertas para o duplo movimento permanente: entrar e sair. São portas que acolhem os que chegam para partilhar suas alegrias e curar suas dores. Estão igualmente abertas para sair em missão, testemunhando Jesus Cristo e seu Reino, indo ao encontro do outro, especialmente dos pobres e excluídos, os que se encontram nas periferias geográficas e existenciais.

Elas são o lugar da manifestação do rosto misericordioso de Jesus de Nazaré, o peregrino de Emaús. Assim, missão e comunidade são como dois lados da mesma moeda. A comunidade eclesial autêntica é, necessariamente, missionária e toda missão se alicerça na vida da comunidade e tende a gerar novas comunidades. Casa acentua as perspectivas pessoal, comunitária e social da evangelização, inserindo, no espírito da Laudato Si, o cuidado com a casa comum, a dimensão ambiental e a proteção da criação divina.

Criar lar é criar família, é aprender a sentir-se unido aos outros, superando o utilitarismo e criando laços solidários de relações. Criar lares, casas de comunhão, é permitir que a profecia se encarne no cotidiano da vida e torne as horas e os dias menos rudes, menos indiferentes e menos anônimos. É criar laços que se constroem com gestos simples, diários e que todos podem realizar. No lar necessita-se da colaboração de todos. Ninguém pode ficar indiferente ou alheio, porque cada qual é um tijolo indispensável em sua construção.

Todos somos convocados a dar nossa resposta positiva, nossos sim, ao chamado do Senhor na construção desta casa, conscientes de que “se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os que a constroem e se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia aquele que a guarda” (Sl 127,1).

 

Comunidades eclesiais Missionárias que se colocam a Caminho

“Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos” (EG 49).

Após a Ascensão de Jesus, o evangelho relata que os discípulos “estavam sempre no templo, bendizendo a Deus” (Lc 24, 53). Isso quer dizer que eles ainda não estavam em movimento, eles não haviam tomado consciência de que deviam sair do templo para partir em missão.

Em Pentecostes eles tomaram consciência de que deviam sair do templo para transmitir a todos a força do ressuscitado, que rompe os espaços atrofiados e os faz viver de portas abertas, em missão, guiados pelo Espírito Santo.

Os discípulos receberam a força do Espírito em um contexto de debilidade e de medo. As portas estavam fechadas, no meio do mundo, por temor. E é no meio desse mundo desafiador e do medo paralisante que o Espírito rompe as portas e destranca as janelas, o que era realidade fechada e assustadora se converte em comunidade em saída, apostólica, missionária.

Com sua presença iluminadora, o Espírito enche a casa onde os discípulos e discípulas se encontravam. Ele não se deixa prender em certos lugares e espaços que dizemos sagrados. Agora sagradas são todas as casas, como espaço privilegiado da ação do Espírito Santo. Ele vem de imprevisto e nos apanha de surpresa, pois nem sempre estamos preparados para deixar-nos conduzir por Ele. O Espírito não suporta esquemas fechados, rompe o que está programado, é um vento de liberdade, fonte de vida e de esperança.

Um vento que sacode nossa casa, que a enche de luz e segue adiante, que traz pólens de primavera e limpa nossas poeiras, que traz fecundidade e dinamismo para o interior de cada um de nós que o acolhe.

A violência, a injustiça, a intolerância e o preconceito em todas as instâncias da sociedade atual nos enchem de medo, desalento e desesperança. Não vemos saída e preferimos fechar-nos em nós mesmos, em nossos ambientes mofados e práticas religiosas alienadas, esquecendo-nos do grande movimento de vida iniciado por Jesus e conduzido pelo Espírito de vida.

É este mesmo Espírito que age a partir de nosso interior, transpassa as portas do coração e ilumina o entendimento para que compreendamos a novidade do Evangelho e sejamos presença iluminadora no ambiente no qual vivemos.

Viver em estado permanente de Pentecostes é superar nossos medos e nossa fragilidade para construir e ser comunidade da confiança, que se arrisca na missão, com misericórdia, como fermento no meio da massa levando a todos a alegria do evangelho.

O medo, a obscuridade e o fechamento da casa interior transformam-se, com a presença do Espírito, em paz, alegria e envio missionário. São sinais palpáveis da ação misteriosa e transformadora do Espírito no interior de cada um e da comunidade.

O Espírito ressoa na oração, no engajamento, na comunidade, no trabalho, na história e na esperança de um futuro melhor. Ressoa em cada encontro humano e com cada membro desta casa comum, a criação divina. E, sob seu impulso, amadurecem em cada um de nós aquelas atitudes que nos levam a viver em plenitude, com compaixão, justiça, verdade e amor.

Deixar-se habitar pelo Espírito Santo implica em romper as falsas seguranças que aprisionam nossa vida, derrubar os muros que cercam nosso coração e atrofiam nossa própria existência e construir pontes que nos unem e nos permitam caminhar com segurança.

A comunidade, casa de portas abertas, desarma as pessoas e as capacita a viver a cultura do encontro, da proximidade, da contemplação, da compaixão e da escuta, criando uma relação sadia com todos e com a criação divina, fazendo-nos viver em solidariedade e compromisso ativo e transformador.

Como Igreja nas bases essas comunidades superam a comodidade, o cansaço e a indiferença, conscientes de que cada comunidade cristã deve se transformar num poderoso centro de irradiação da vida em Cristo.

“Esperamos um novo Pentecostes que nos livre do cansaço, da desilusão, da acomodação ao ambiente; esperamos uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança” (DAp 362).

Para realizar a missão faz-se necessária a conversão pastoral e ecológica de cada membro da comunidade para que haja sua renovação missionária. Caso contrário, continuaremos surdos e insensíveis ao apelo de nossos irmãos pobres, excluídos, marginalizados e perderemos esta hora de graça, este novo Pentecostes para a vida da Igreja e do mundo.

Esta firme decisão missionária deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos os planos pastorais e toda nossa ação evangelizadora.

“Nenhuma comunidade deve isentar-se de entrar decididamente, com todas as suas forças, nos processos constantes de renovação missionária e de abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” (DAp 365).

Trazendo a missão em nosso coração e em nossa alma é que seremos capazes de assumir o projeto de Aparecida e ampliar a consciência e as práticas ministeriais da Igreja.

 

Comunidades que se articulam para as práticas da Caridade

 

Na fé cristã, a espiritualidade está centrada na capacidade de amar a Deus e ao próximo. Rezar e servir, amar e contemplar são realidades indispensáveis para o discípulo e discípula de Jesus Cristo. Sem oração não existe vida cristã autêntica. Sem caridade, a oração não pode ser considerada cristã, como nos recorda o Papa Francisco: Diga-me como rezas, que te direi como tu vives. Diga-me como tu vives, que te direi como tu rezas!

Quando se contempla Deus percebe-se a beleza do pequeno e do simples, e se educa o olhar para ver as necessidades do outro. Somente um olhar interessado pelo destino do mundo e do ser humano permitirá experimentar a dor pela situação que rege a história, mas que é superada pelo amor de Deus que a envolve. Somente contemplando o mundo com os olhos de Deus  é possível perceber e acolher o grito que emerge das várias faces da pobreza e da agonia da criação.

A Igreja reza, em sua liturgia, dirigindo-se ao Pai, recordando que Jesus “sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados. Com a vida e a palavra anunciou ao mundo que sois Pai e cuidais de todos como filhos e filhas”.  Igualmente, suplica: “Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que, a exemplo de Cristo, e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles.”

As questões sociais, a defesa da vida e os desafios ecológicos da atual cultura urbana globalizada têm que ser enfrentados pelas nossas comunidades numa postura de serviço, diálogo, respeito à dignidade da pessoa humana, defesa dos excluídos e marginalizados, compaixão, busca da justiça e do bem comum e cuidado com o meio ambiente. Trata-se de “chorar com os que choram” (Rm 12,15). “Saber chorar com os outros: isto é santidade”.

“Não podemos ser uma Igreja que não chora à vista destes dramas dos seus filhos jovens. Não devemos jamais habituar-nos a isto, porque, quem não sabe chorar, não é mãe. Queremos chorar para que a própria sociedade seja mais mãe, a fim de que, em vez de matar, aprenda a dar à luz, de modo que seja promessa de vida. Choramos ao recordar os jovens que morreram por causa da miséria e da violência e pedimos à sociedade que aprenda a ser uma mãe solidária”.

A Igreja anuncia o “evangelho da paz” (Ef 6,15), que é Jesus Cristo em pessoa (Ef 2,14). Isso significa não ignorar nem deixar de enfrentar os desafios da violência explícita ou institucionalizada pelas injustiças sociais, tarefa profética que exige ação de denúncia e anúncio, sendo voz dos sem voz, mas, também, promovendo atitudes de não-violência.

“Aprendei a fazer o bem: buscai o direito, socorrei ao oprimido, fazei justiça para o órfão, defendei a causa da viúva” (Is 1,17).

A solidariedade com quem sofre as consequências do desemprego e do trabalho precário é uma expressão importante de caridade, devendo se manifestar pela atuação organizada dos cristãos leigos e leigas. A caridade se expressa no empenho e na atuação política dos cristãos e das Comunidades Eclesiais: “A caridade deve animar a existência inteira dos fiéis leigos e, consequentemente, também a sua atividade política vivida como caridade social”.

O Papa Francisco insiste numa “Igreja pobre para os pobres”. Trata-se de superar as ambições, o consumismo e a insensibilidade diante do sofrimento dos outros. Afirmou Bento XVI: “A opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica, naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a sua pobreza”.

O Evangelho é claro: O Senhor convidou-os, ide em frente! E isto significa que o cristão, a cristã é um discípulo do Senhor que caminha, que vai sempre em frente.

Ninguém pode exigir de nós que releguemos a religião a uma intimidade secreta de pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos.” (EG 183)

 

Conclusão

 

As Diretrizes apresentam a consciência de que a Igreja deve ser a Casa, a Casa Comum sustentada pela Palavra, pelo Pão, a Caridade e a Missão. Esta casa é o lugar de saciar nossas sedes. Diante da samaritana, Jesus pediu: “Dá-me de beber” (Jo 4,7). Jesus tem sede da entrega confiante a Ele de nossas comunidades eclesiais e de nosso empenho missionário e social. Ele deseja uma Igreja servidora, samaritana, pobre com os pobres.

Ao assumir a imagem da Casa, estamos pensando na mesa, na família e na vida comunitária. Na mesa está a comida e o melhor tempero da refeição humana é a presença do outro, da outra. Quanto mais profunda a relação e a intimidade entre os convidados à mesa, tanto mais saboroso será o alimento. E quanto maior o número de pessoas à mesa maior se torna o clima de encontro e alegria.

O compromisso social e comparado a uma festa. A festa é o lugar para saciar uma fome muito mais oculta e profundamente humana: a necessidade de estar juntos, de sentir o calor de outras pessoas, de ouvir suas histórias e contar as nossas, de trocar experiências vividas. Se a comida combate a fome material, a festa combate a fome existencial, espiritual. O comer humano tem um caráter sagrado, que implica num ritual, na liturgia da alimentação, que requer um certo número de protagonistas, em geral escondidos nos bastidores da cozinha.

Jesus, o profeta da Galileia, assumiu sua missão em meio às pessoas, de forma alegre, promovendo e aceitando convites para encontros festivos, sendo até chamado de “comilão e beberrão”. Foi assim nas bodas de Caná, na multiplicação dos pães e na última ceia.

Jesus é o profeta itinerante de Nazaré, que se comove e se compadece das “multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”, sobrepondo a misericórdia e o perdão sobre o julgamento e a condenação.

A ação evangelizadora consiste em formar comunidades missionárias que, pela vivência da comunhão assumama o compromisso de compartilhar bens, ideias, sentimentos e ações. No partir do pão, fazendo memória de Jesus, pão repartido para a vida do mundo, tornem-se pão para alimento da humanidade. As orações em comum devem levá-las as conectavam à fonte da vida e do amor e serem impleidas a realizar o projeto do Reino de Deus na prática da solidariedade com a comunidade interna e externa.

As Comunidades Eclesiais Missionárias tornam-se um espaço estruturador do elemento religioso na sociedade, tanto a nível pessoal quanto cultural. Elas capacitam seus membros a encontrar o seu próprio caminho na busca da realização pessoal, vivido em comunidade, tendo sempre a pessoa de Jesus e o Reino como referências. Elas promovem ações afirmativas de raça, gênero, etnia, buscando respostas às inúmeras angústias e dilemas humanos que desafiam a vivência da fé. Elas possibilitam uma nova reconstrução do tecido eclesial e social.

Essas comunidades, a partir da mística cristã e fundamentada na ética para a convivência humana, educam para a cidadania, o direito à diferença, à igualdade, à tolerância, à diversidade em todas as suas manifestações, como reconhecimento ao direito de existir, na vivência do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, na convivência com a pluralidade, respeito ao outro, autonomia e liberdade.

Elas despertam em seus membros a consciência ecológica, a proteção ao meio ambiente, o cuidado com a casa comum, articulando-se aos movimentos que lutam em defesa e proteção ambiental, a partir de sua consciência espiritual e social.

Elas valorizam todas as instâncias catequéticas, de evangelização, de iniciação a vida cristã, de ações afirmativas de cidadania, na garantia e promoção de direitos civis e sociais como a defesa do código do consumidor, do estatuto das crianças e dos adolescentes, dos idosos, da juventude e da cidade e na participação nos conselhos de cidadania.

Essas comunidades promovem encontros desportivos, atividades teatrais, momentos recreativos e lúdicos, a partir dos quais despertam para o engajamento comunitário, o estudo da bíblia e para atividades pastorais.

 

 

 

 

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