A Campanha da Fraternidade 2021: “fraternidade e diálogo: compromisso de amor”

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A Campanha da Fraternidade 2021: “fraternidade e diálogo: compromisso de amor”[1].

Pe. Isaias Mendes Barbosa[2]

A Campanha da Fraternidade começou desde 1964 no Brasil. Cada Campanha é marcada por um tema que tanto nos convida à conversão como nos exorta na promoção humana, social e, em certo sentido, ecológica. Desde o ano 2000 que de cinco em cinco anos a Campanha da Fraternidade trabalha de modo Ecumênico. No ano 2000 o tema foi “Dignidade Humana e Paz por um novo milénio sem exclusões”; no ano 2005 foi “Solidariedade e Paz- Felizes os que promovem a paz” (campanha do desarmamento); em 2010 houve a temática “Economia e vida” (Economia para o Bem Comum); em 2016 tivemos a questão da “Casa Comum, nossa Responsabilidade”.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) junto com as Igrejas cristãs (a Igreja Batista do Brasil, a Igreja Betesda, a Igreja Anglicana, a Igreja Católica, a Igreja Presbiteriana, a Igreja Sirian Ortodoxa e a Igreja Luterana) se uniram e elaboraram o Texto-Base da Campanha. O tema desse ano é: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, enquanto que o lema é “Cristo é a nossa paz, do que era dividido fez uma unidade”(Ef 2,14). Nessa Quaresma, em vista da páscoa, o objetivo geral é: convidar as comunidades de fé e pessoas de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para superar as polarizações e violência através do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade (At 2,1-13), promovendo a boa e saldável convivência.

O objetivo prático e específico desta Campanha é traduzido nos seguintes pontos: i) denunciar as violências estruturais, sociais e ambientais que são praticadas em nome de Jesus; ii) comprometer-nos com as causas que defendem a casa comum; iii) amenizar as desigualdades culturais, sociais, econômicas, de gênero e etc; iv) promover ações concretas de amor ao próximo, a cultura do amor; v) experimentar uma convivência ecumênica e inter-religiosa; vi) ter o diálogo e a convivência fraterna como algo irrenunciável e a ser compartilhado nas experiências fraternas (CFE, n.3). Além disso é preciso continuar, de modo atualizado e virtual, os trabalhos iniciados nas bases, os encontros. É preciso um cuidado preventivo maior, épreciso a conscientização, a responsabilidade, o encontro e o abraço distante.

Se no ano anterior a Campanha tratou do cuidado, esse ano a questão chave é o diálogo (CFE, n.8). Se não temos diálogo é porque algo não está bem no nosso testemunho cristão. O diálogo é o elemento essencial do nosso batismo, ele se faz pela cultura do encontro, pela celebração da vida e na abertura para o outro. O diálogo é essencial para a vivência de nossa espiritualidade. A conversão ao diálogo e compromisso de amor trata-se de um processo de maturidade permanente e constante. A conversão exige de nós a forma de nos relacionarmos no mundo, relacionamento comprometido com o amor.

Daí se faz necessário respondermos algumas questões: 1) a nossa presença no mundo é de luz, esperança, de luta, de coragem, de resistência, de compaixão, empatia e convivência, de cuidado, ou a nossa presença no mundo é de divisão, de polarização, de inimizade, de violência? Jesus nunca orientou seus discípulos e discípulas para criarem inimizades e perseguirem outras pessoas em seu nome. Precisamos nos conduzir para um reencontro com a vida de amor anunciada e vivida por Jesus; 2) nossa fé em Cristo tem contribuído para posturas de acolhida e de compromisso com as pessoas vulneráveis e vulnerabilizadas, pobres e excluídas? 3) estamos comprometidos com os projetos de superação da desigualdade?

Quaresma são quarenta dias dedicado à oração, ao jejum, à partilha do pão e à conversão. A oração é encontro com Deus, comunhão com Cristo que está, no mesmo instante, na eucaristia, na palavra, em nós, no irmão e na terra. Ele está gritando por justiça, misericórdia, paz e salvação. O jejum agradável a Deus é quebrar as amarras da maldade, desamarrar as correias do julgo, dar liberdade aos que estão curvados, romper com toda opressão, partilhar o pão com o faminto, acolher os pobres e mendigos, cobrir os nus, não desprezar quem é da nossa própria família e da nossa própria carne, não desprezar os pobres.  Somos chamados a superar todas as formas de intolerância, racismo, violência, preconceito e discriminação. Promover a paz que luta pela paz, pelo reino, contra a rotina, o medo, as armas. Precisamos da paz sem fronteira, sem endereço fixo, sem cultura limitada, sem raça determinada, sem gênero dominante, mas a paz que é Shalom: perdão, retorno, abraço, misericórdia, justiça (CFE, n.13-15).

Na metodologia da exposição vamos seguir o texto bíblico dos discípulos de Emaús em forma de paradas: na primeira parada vamos refletir sobre os acontecimentos (Ver) em que Jesus sofreu conosco; na segunda parada vamos passar pelas pontes de superação que conseguimos fazer (boa nova), deixando-nos ser iluminado por Jesus presente na nossa vida (Julgar) vulnerável; na terceira parada vamos apresentar exemplos que podem contribuir para derrubar os muros das divisões (Agir); por último: vamos ver a estrutura da celebração que nos ajudar para afirmar a diversidade como revelação da amorosidade de Deus (CFE, n.19-22).

Na primeira parada (CFE, n.23-94) tocamos os acontecimentos recentes: a pandemia global (Covid-19) que ceifou 2.387.192 pessoas, dentre estas 237.489 no Brasil. Presenciamos milhares de sepultamentos. Foram sepultadas muitas histórias, foram histórias interrompidas de importantes lideranças indígenas, populares, comunitárias. A pandemia com a irresponsabilidade de muitas lideranças políticas dilacerou famílias e deixou um espaço vazio na cultura nacional. A imobilidade, a incerteza, a insegurança e o descaso político bateram na nossa porta. Nos deparamos forçosamente com a finitude da quaresma: “tu és pó”. Ficamos diante da vulnerabilidade e potencialidade da autodestruição dos seres humanos; tivemos discursos apocalípticos e negacionistas ( sobre a covid, a ciência, ONU e a OMS); as lutas geopolíticas e a xenofobia (índios e venezuelanos).

            As fronteiras foram fechadas; retornou à fome, o desemprego, pessoas voltaram a estarem em situação de rua, tivemos a cultura de violência familiar, contra as mulheres, as pessoas LGBTQI+; sofremos com a violência policial e o racismo (João Pedro Mattos Pinto); a indiferença (trabalhadoras domésticas) (mãe do menino Miguel Otávio, de 5 anos, que caiu de um prédio). O racismo e o ódio feriram a classe pobre além das demais. O Estado se submeteu ao mercado, os bancos receberam ajuda do Estado, enquanto que parte da população ficou com a renda básica emergencial; o processo eleitoral foi conturbado, tivemos disputas partidárias, desentendimento entre líderes políticos e religiosos; sofremos com as reformas (trabalhista, a lei do teto e gasto) as fake News e os discursos de ódio. O seguimento a Jesus, a dedicação ao sagrado e comunhão de fé, não nos isentaram das crises que estavam acontecendo; tivemos tensões, stress e conflitos em todas as esferas da vida; como enfrentar o período de tormenta? Foi preciso discernimento. Tivemos sinais proféticos: as Igrejas lutando pelo cuidado da vida humana, com dificuldade, e as plataformas (celebrativas) online.

Tivemos crises, mas foi preciso contemplar a realidade com agilidade de coração. Semelhante aos discípulos de Emaús “ficamos desorientados e incapazes de interpretar a realidade na que estamos inseridos” (n.46).  Estamos diante de estruturas racistas e excludentes; experimentamos de outro modo, a crise econômica de 2008, na qual os bancos foram socorridos, mas os pobres não. A justificativa do estado foi salvar o sistema econômico mundial em detrimentos das políticas públicas de seguridade dos direitos humanos; a justificativa governamental foi criar inimigos para o povo: os direitos humanos, os povos indígenas e ambientalistas, os movimentos socias, as religiões de matriz africana, os mulçumanos, a Venezuela, o comunismo, o socialismo, os imigrantes; as reações foram vermos fragilizados contra fragilizados; estimulou-se a exclusão, a violência e a perversidade; o discurso da meritocracia tentou justificar quem estava no poder e excluir os indesejáveis; o suportar com paciência se tornou elemento discursivo  para acalmar os ânimos e não promover a reação humanizante.

A crise diante do deserto da pandemia e das polaridades tenta fazer o povo voltar a traz e querer retornar para uma situação de falsa segurança e escravidão ditatorial; quem ameaçou o sistema, o capital, a concentração de riqueza, o património, o status foi, até hoje, visto como inimigo; os vulneráveis foram assumidos como culpados e nos transformamos em uma família de inimigos. O aprofundamento do sistema de acumulação do capital apropriou-se dos “bens comuns” para explorá-los economicamente. Nossos rios ficaram poluídos, nossas florestas derrubadas, o organismo vivo terra sofreu com uma parcela da morte de sua biodiversidade.

No fundamentalismo alienado religioso a lei se tornou instrumento de opressão e violência como em Israel. “Era a Lei religiosa que separava as pessoas puras das impuras, que identificava as pessoas doentes como pecadoras, que silenciava as mulheres, os pobres, os órfãos e tanto outros. As pessoas empobrecidas e que não se encaixassem nas normas eram obrigadas a viver do lado de fora dos muros da cidade. Jesus questionou” (CFE, n.57) isso, o seu profetismo o fez ser tratado como inimigo, blasfemador e pior pecador. Na estrutura vigente entramos na necropolítica que decide quem vai viver e quem vai morrer, agridem as pessoas negras e pobres, que estimula o povo a ir contra os povos indígenas e contra o combate da Covid 19, contra os chamados “não cidadãos”.

Na segunda parada (CFE, n.95-143) estamos diante de Jesus e precisamos deixar-se tocar por Ele e pelas mensagens que só podem provir Dele. Temos a “carta para pessoas de boa vontade no mundo cheio de barreiras e divisões” (CFE, n.95); é preciso reconhecer Jesus, a mão de Deus, nas experiências, na história; veja o Deuteronômio (6,21) que diz: “Eramos escravos do Faraó no Egito, mas com a mãos forte, o Senhor nos fez sair do Egito”.  A Igreja do pentecoste tem a tarefa de rememorar o que Jesus ensinou. Os conflitos entre judaísmo e paganismo. Quando alguém assumia a mensagem do Evangelho tal pessoa se comprometia com um novo modo e sentido de vida, não mais pela violência, pela hierarquia e pela exclusão.

As Cartas Paulinas nos ensinam a compreender e fazer a vontade de Deus; não mais pela Lei que dividia israelita de um lado e asnações de outro, mas pela comunhão, pela gratuidade e pelo amor de Deus. Tal amor que acolhe e perdoa; a Igreja era perseguida, os judeus eram massacrados no império romano, a revolução judaica contribuiu para a destruição de Jerusalém; as instituições da época estava contra quem pregava o evangelho, os mártires; havia novas lideranças e memorias vivas de Jesus. No fim do primeiro século sob o império de Domiciano o cristianismo se torna a religião oficial; havia comunidades diversas, mas ligadas a Jesus como filho de Deus; havia comunhão e solidariedade. Como dizia Paulo: não há mais judeus, nem grego, nem escravo, nem livre, mas somo um em Cristo; a Carta de Éfeso nos apresenta a suspeita de conflito entre os judeus cristãos e os gentios cristãos; Cristo é a cabeça e nós somos o corpo, este é construído no amor; temos como resposta os sinais do reino: o amor, a benevolência, o perdão, a liberdade e a graça (Ef 1,3-8); todos somos concidadãos do povo de Deus.

Paulo nos convida ao serviço mútuo; Jesus derrubou a parede da separação e da inimizade (os gentios poderiam ser condenados à pena de morte se entrasse no pátio dos judeus); a paz significava superação da violência e das discriminações, a plenitude da vida. O bem viver era sinal do Reino. Temos o enraizamento do amor misericordioso de Deus em Jesus: a Igreja nasceu da graça e é sinal de salvação, o evangelho derruba os muros do preconceito, da divisão e faz partilhar o pão; não é possível estar com Deus, discriminando e desrespeitando as pessoas; o Cristo é a nossa paz: dom do Cristo ressuscitado.

A paz inclui o povo e os animais; a justiça e a paz se abraçarão; a paz enquanto reconciliação com Deus, nos coloca como filhos adotivos. Em Ef 4,13 vemos que é preciso amadurecer em Cristo. O Amor incondicional vem de Jesus. Ele nos abre para: diálogo, perdão, compaixão, convívio, resistência, verdade revelada na prática da justiça, o Evangelho da Paz, a fé, a palavra de Deus, as orações e súplicas a Deus. Em Efésios 2,1-10 o orgulho religioso é contrário ao evangelho; somo um em Cristo; somo criação e uma nova humanidade: somos concidadãos dos santos, herdeiro da salvação, todos são integrados ao Cristo da nova morada de Deus; temos a necessidade das ofertas dos dons, da cooperação mútua, deixando as formas de interação impositivas, desiguais, orgulhosas e interesseiras.

Na terceira parada (CFE, n.144-ss) vemos a centralidade da fé cristã: “Cristo é a nossa paz, do que era dividido fez uma unidade” para derrubar os muros das divisões com as pontes e aberturas para o diálogo. A boas práticas desta parada é o CONIC e a CMI com a Semana de Oração pela Unidade Cristã: diferentes Igrejas celebrando o dom do Espírito, cada Igreja na sua especificidade, mas rezando umas pelas outras. Eles elaboraram um subsídio com testemunho ecumênico, com informações culturais e os desafios eclesiais.

Entre os membros da Campanha houve práticas primitivas comuns: a partilha de púlpitos, a celebração em Igrejas diferentes e homilia realizada pelas pessoas visitantes; o exemplo profético de tolerância religiosa, principalmente às religiões de matriz africanas. No ano de 2016, em Brasília, um Terreiro foi incendiado, no terreiro tinha projetos sociais. A CONIC foi à Brasília para uma reunião anual, no mesmo dia teve o congresso Nacional da Juventude. A entidade foi, com solidariedade, visitar a mãe de santo, plantaram uma muda de Pau-Brasil que tinha sido destruída do terreiro. Estavam presentes 20 lideranças religiosas de diferentes Igrejas. Agora todo ano eles vão celebrar o aniversário da árvore como marca de respeito pelas religiões.

Eles realizaram missões ecumênicas no Mato Grosso do Sul em solidariedade ao povo Guarani Kaiowa que sofrera agressões envolvendo o envenenamento da água potável, o assassinato de pessoas, a destruição das Casas de Reza. A depressão e o alcoolismo são consequências catastróficas de agressão à religiosidade e cultura dos povos indígenas.

Em 2015 e 2016 o Fórum Ecumênico ACT-Brasil, coordenado por CESE, CONIC, FLD e KONONIA organizou uma missão em defesa da vida deste povo, de sua espiritualidade e território. A esculta, a interação e a partilha foram destaques; a CONIC também organizou o encontro de superação da violência contra as mulheres. O encontro teve como tema “mulheres, direito e justiça: um compromisso ecumênico. Há um desnível entre homens e mulheres nos espaços e funções nas diversas Igrejas. Além disso houve o Encontro Ecumênico de Mulheres Regionais. Também teve uma roda de conversa “Vozes de Mulheres sobre o Sagrado”.

Em 2016 a Campanha da Fraternidade Ecumênica promoveu a reflexão sobre o direito humano ao saneamento básico e à água potável; Daí surgiram iniciativas diversas como o Fórum Alternativo Mundial da Água. As nossas tradições religiosas possuem vínculo com a água. Esta possui características do Criador.

Na quarta parada temos as orientações para celebrações que podem ser presenciais ou transmitidas pela internet, adaptadas a cada realidade. As propostas de dinâmica e liturgia ecumênica seguem a estrutura: hino da campanha, acolhida, invocação, momento penitencial, anúncio da graça, hino de renascimento, oração do dia e Liturgia da Palavra (1º leitura, Evangelho, Reflexão, Confissão de fé, Ofertório, Hino para Coleta, Intercessões, Pai-Nosso Ecumênico, Oração da Paz, Benção final).

[1]Texto produzido e apresentado às Pastorais Sociais, Cebs e Organismos da Arquidiocese de Fortaleza.

[2]Membro da Congregação dos Missionários Redentoristas. Responsável por acompanhar as Pastorais Sociais, Cebs e Organismos da Arquidiocese de Fortaleza. Graduado no curso de Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) de Minas Gerais. Professor licenciado no curso de Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Possui pesquisa filosófica e produção literária no Grupo de Estudo em Giambattista Vico, no Grupo de Pesquisa do Observatório de Estética e Espaço Social Pier Pasolini, no Grupo de Pesquisa de Filosofia Medieval. Tem experiência em Monitoria de ensino superior (Filosófico), pesquisa e produção científico-filosófica em Giambattista Vico. Foi bolsista do Programa de Pesquisa do PIBIC/ FAPEMIG, ligada ao Projeto de Pesquisa do Professor Dr. Afonso Murad, na área da Ecoteologia.

 

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