19º Domingo do Tempo Comum – Lc 12,32-48 – ano C – 11-08-19

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Frei Ludovico Garmus
  1. Primeira leitura: Sb 18,6-9

Aquilo com que puniste nossos adversários, serviu também para glorificar-nos.

O livro da Sabedoria é o último livro do Antigo Testamento, provavelmente escrito em Alexandria (Egito), entre os anos 30 a.C. e 40 d.C., quando a colônia judaica local sofria severas perseguições. O autor exalta o papel da sabedoria de Deus na criação e na história da salvação, sobretudo ao fazer uma releitura do êxodo do Egito (cf. Sb 16–19). O texto da liturgia de hoje lembra a noite de vigília, na qual os hebreus se preparavam para celebrar a páscoa, antes de atravessar o Mar Vermelho. Era uma noite esperada pelos hebreus “como salvação dos justos e perdição dos inimigos”, que perseguiam o povo de Deus. A punição dos inimigos e a libertação da escravidão do Egito preparam a aliança do Sinai. Ali Deus escolheu os hebreus como seu povo eleito, libertou-o da escravidão do Egito, estabeleceu com ele uma aliança (“pacto divino”) e assim os fez “participar dos mesmos bens e dos mesmos perigos”. Com estas palavras, o autor conforta os judeus perseguidos em Alexandria, lembrando-lhes que ser povo eleito por Deus tem o seu preço. Mas o sofrimento não significa abandono de Deus, porque Ele jamais se esquece da aliança de amor que fez com seu povo. A fé no Deus da aliança, no Libertador da escravidão do Egito, é a âncora mais segura para a comunidade agitada pela perseguição religiosa.

Salmo responsorial: Sl 32

Feliz o povo que o Senhor escolheu por sua herança.

  1. Segunda leitura: Hb 11,1-2.8-19

Esperava a cidade que tem Deus mesmo por arquiteto e construtor.

Hebreus é a última das catorze epístolas atribuídas a Paulo. Seu verdadeiro autor, porém, é um discípulo anônimo de Paulo. Não escreve propriamente uma carta, mas uma homilia ou exortação a uma comunidade que ele conhece e da qual está ausente. A comunidade é formada por cristãos de origem judaica, da segunda geração, que estavam perdendo o fervor original. O texto que ouvimos quer revigorar a fé e a esperança, num ambiente hostil no qual viviam os cristãos. O autor anônimo parte da definição do que é fé: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem”. Ao longo do texto ocorre sete vezes a palavra fé. O autor propõe como testemunho a fé dos patriarcas, Abraão, Isaac e Jacó. O elogio se concentra em Abraão e Sara. Abraão obedeceu à ordem de Deus e partiu para uma terra desconhecida que lhe seria dada em herança. Pela fé Abraão e Sara, embora estéreis, tornaram-se pais de uma multidão de descendentes, comparável às estrelas do céu. Pela fé na promessa que, de Isaac, teria uma grande descendência, Abraão ofereceu seu filho em sacrifício. Crente que Deus poderia “até ressuscitar os mortos”, recuperou assim seu filho vivo. O autor coloca a fé que Abraão tinha no “Deus dos vivos” como um símbolo da fé cristã na ressurreição dos mortos. Em meio à ameaça de morte em que viviam os cristãos o autor planta a fé na ressurreição de Cristo como um estandarte de esperança. A fé na ressurreição de Cristo e nossa ressurreição caminham juntas: “Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é inútil…” (cf. 1Cor 15,17). O Deus de Jesus Cristo “não é Deus dos mortos e sim dos vivos” (Mc 12,27).

Evangelho: Lc 12,32-48

Vós também, ficai preparados!

No evangelho do domingo passado, Jesus criticava a cobiça e o acúmulo dos bens passageiros deste mundo e nos exortava a sermos vigilantes e a buscarmos os bens que não passam. Acima de tudo deve estar o amor a Deus e ao próximo. No evangelho de hoje, Lucas retoma e aprofunda os ensinamentos do texto anterior, aplicando-os à comunidade cristã, que ele chama de “pequenino rebanho, a quem foi dado o Reino”. Esse Reino que Jesus anuncia caracteriza-se pela venda e partilha dos bens com os pobres, para investir no tesouro do céu, que jamais acaba. O cristão deve estar focado em Deus e não nas riquezas deste mundo: “Onde está vosso tesouro, ali também estará vosso coração” (v. 34). Deve estar sempre preparado e vigilante, aguardando a vinda do Senhor, que não tem data marcada. Para esclarecer o sentido do estar vigilante Jesus conta a parábola dos empregados que devem estar sempre vigilantes para receber seu patrão, quando ele voltar de uma festa de casamento, a qualquer hora da noite (v. 35-40). No início da segunda parte (v. 41-48), Pedro, em nome dos apóstolos, pergunta a Jesus: “Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos”? Na resposta Jesus se dirige, sobretudo, aos dirigentes da comunidade cristã, encarregados de vigiar o “pequenino rebanho” e cuidar de seu bem-estar. Jesus é o bom Pastor (cf. Lc 15,1-7; Jo 10,1-18). Encarregou os dirigentes da comunidade (apóstolos e ministros) de cuidar de seu rebanho. Escolhidos pelo Senhor, eles precisam estar mais bem preparados para vigiar pelo “pequenino rebanho” e assim deixá-lo sempre preparado para a segunda vinda do Senhor. Por isso, deles se exigirá mais quando o Senhor vier como juiz dos vivos e dos mortos, no final dos tempos.

O Evangelho de hoje contém como mensagem central a fé e a esperança na segunda vinda do Senhor. Esta fé tem como desdobramentos práticos: 1) a partilha dos bens deste mundo com os mais pobres; 2) a busca do tesouro mais precioso, que é o amor a Deus sobre todas s coisas e o amor ao próximo como a si mesmo; 3) e a atitude de vigilância na expectativa da segunda vinda do Senhor.

Pergunta: Que prioridade eu coloco em minha vida como cristão?

Frei Ludovico Garmus, Ofm é professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). 

 

Paulo Ueti

Vigiar é uma atividade de cuidado e atenção

Vigiar é uma atividade de cuidado e atenção. Infelizmente vigiar, em nosso vocabulário comum, tornou-se uma palavra com conotação negativa muito forte. Pensando na religião, essa palavra se conectou de tal forma a uma imagem de um Deus que pune, ao ponto de se transformar, para muita gente, num lugar de medo, opressão, culpa e castigo. Nada mais contrário ao seu significado etimológico e à experiência cristã e de outros grupos de Deus.

Religião é para juntar as pessoas e a natureza. É conexão, relação amorosa e de equidade. É espaço de cura, sanação e transformação constante. A “verdadeira” religião, segundo o movimento profético, é “buscar a paz e a justiça”, “defender o órfão e a viúva” (cf. Tiago 1,27). Não deve ser lugar onde o medo e o castigo, a guerra, violência e intolerância sejam o prato do dia. Essa prática, resultante de um tipo de teologia, foi amplamente desautorizada por Jesus. Mesmo seus discípulos estavam envoltos nesse universo teológico e de espiritualidade violento e intolerante. Precisavam experimentar outra leitura possível da religião na qual estavam inseridos. E não só os discípulos no tempo de Jesus, mas também a Igreja de Lucas na segunda metade do século I.

Religião como espaço de liberdade e libertação

Em seu evangelho, entre os capítulos 9 a 19, Lucas apresenta um Jesus que provoca caminhos novos nos quais se possa entender a experiência de Deus e viver a religião como espaço de liberdade e libertação. As conversas e reflexões deste bloco do evangelho estão direcionadas principalmente para as pessoas que seguiam a Jesus mais de perto (chamados de discípulos ou de os Doze em outro evangelho).

Depois de uma longa conversa sobre o desapego, provavelmente visando colaborar com a comunidade para que compartilhe seus recursos humanos e econômicos, Jesus pede que os discípulos tenham os “rins cingidos e as lâmpadas acesas”. Eles devem estar sempre preparados para serem “excêntricos”: preparados para sair de si mesmos, desapegar-se de seu lugar comum e mover-se em direção ao outro e ao mundo, que clama e geme dores de parto (Romanos 8,22).

Cingir os rins: discernir pela vida em plenitude

Há uma tradição bíblica que identifica os rins como o lugar dos sentimentos, o lugar do afeto, por onde somos “afetados” pelo mundo externo e pela experiência íntima de Deus. É o lugar da nossa consciência ética e estética. É o lugar das nossas decisões. Temos que decidir por onde ir, que teologia desenvolver, a quem escutar. É preciso saber “quem é o meu próximo”, que conflitos assumir e decidir viver para Deus, não para nossas verdades e posses. Cingir os rins é pedido para estar preparadas/os, para movimentar nosso corpo em defesa dos valores do Reino. É requisito e expressão da fé: movimento pela vida e plenitude.

Ficar com a lâmpada acesa: iluminar a escuridão do mundo

Jesus também nos pede para ficar com a lâmpada acesa. Somos chamadas/os para estar como luz, como indicador de caminho, como facilitador de processos e como iluminador da escuridão diante e dentro do mundo. O encontro com Jesus e a convivência com ele deve nos encher de energia (dínamo, no grego, significa força, poder). Com Jesus, temos condições de atuar no cotidiano não nos deixando “conformar” pelos poderes opressores e hegemônicos deste mundo em que vivemos. Transformados, vivemos pela fé para outro mundo possível e podemos desenvolver outras teologias possíveis em favor da vida e da libertação.

A lâmpada acesa não deve ser usada para cegar e impedir que novidades sejam descobertas. Os rins cingidos são para redescobrir nossa vocação para a indignação e para a missão: ocupar as ruas e as ideo-teologias para que a vontade de Deus seja feita assim na terra como no céu; para que a justiça e misericórdia sejam o prato do dia; para que o pão nosso cotidiano seja realidade.

Vocação não é talento, é chamado, convocação a escutar a vontade de Deus com os ouvidos do coração

Para a Igreja Católica Romana, agosto é o mês dedicado às “vocações”. É bom lembrar que vocação não é habilidade, talento. Vocação é CHAMADO, CONVOCAÇÃO. Por isso cingir os rins e manter nossa luz acessa é tão importante. Para escutar com os ouvidos do coração (no nosso mais interior) a voz de Deus que clama no deserto, que grita através do povo e dos grupos violentados e excluídos do convívio e estrutura social e das igrejas e grupos religiosos.

O que estamos ouvindo? A quem estamos ouvindo? Que chamado (vocação) estamos atendendo? Estejam preparadas/os sempre. Porque o Filho do Homem (profeta, militante da vida e da inclusão) aparece de surpresa e surpreende como aparece. Estejamos preparadas/os. Esperemos contra toda esperança (Romanos 4,18) e oremos (ora et labora – orar e trabalhar) para que a vontade de Deus seja feita e sua palavra seja nossa palavra: ação criadora e plural neste mundo e no mundo que há de vir, agora e depois.

Texto de Paulo Ueti, facilitador da Aliança Anglicana, teólogo e estudioso da Bíblia.

 

 

 

 

 

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