A chegada do Natal

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Pe. Nelito Dornelas – Assessor das CEBs/MG

Estamos na época de Natal, mesmo que para muitas pessoas e muitos povos o clima seja de sexta-feira da paixão, o que deve ficar claro para nós é o significado religioso e espiritual desta festa.

Deus não é um velho barbudo, de olhos penetrantes e juiz severo de todos os nossos atos. É uma criança. E, como criança, não nos julga. Quer apenas conviver em paz, ser acolhido e acarinhado. Do silêncio da manjedoura ecoa uma voz tão forte e vibrante maior que qualquer força ou poder estabelecido que a queira silenciar. É a voz daquela parcela da humanidade deixada à margem dos projetos de sociedade pensados e programados por aqueles que têm suas mãos manchadas de sangue inocente.

É a voz de toda a criação divina que, geme ofegante como uma mulher em dores de parto, aguardando a nobre manifestação dos filhos e filhas de Deus que vão ao seu encontro para libertá-la (cf Romanos 8,18 ss).

Neste tempo natalino faz bem revisitar o poema de Fernando Pessoa sobre o Menino Jesus:

Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava. Ele é humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro. É a criança tão humana que é divina. Damo-nos tão bem um com o outro, na companhia de tudo, que nunca pensamos um no outro. Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro de tua casa. Despe o meu ser cansado e humano. E deita-me na cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é.

Armemos nosso Presépio em família, recoberto de lirismo, conforme os relatos bíblicos e a tradição franciscana, porém, trazendo à nossa mente que Maria e José passaram pelo drama de serem recusados pelas famílias de Belém. Tiveram que ocupar um curral de animais num pasto na periferia de Belém. Depois de nascido o menino tiveram que fugir para o Egito, longe da repressão assassina de Herodes que manda degolar todos os bebês recém-nascidos. Deus presente na conflitividade humana.

Celebrar o nascimento de Jesus é, no mínimo, renascer com ele, deixar morrer o egoísmo que nos impregna e fazer emergir todas as boas energias que fazem do amor a matéria-prima e última de todo programa de vida centrado no advento de novas relações pessoais e sociais. A devoção ao Menino Jesus remonta aos primeiros séculos da Igreja. Em suas homilias sobre São Lucas, Origenes, no século terceiro, não se contenta em propor como modelo de fé aos pastores, a espiritualidade do Presépio. Ele demonstra tanta familiaridade com esta espiritualidade, que expressa essa intimidade quase familiar, este fervor que o anima pelo seu Senhor e seu Cristo, afirmando que todo aquele que, como Simeão, aspira à liberdade, deve tomar Jesus em seus braços. Somente assim poderá então alegrar-se e ir aonde quiser, para que por meio de sua voz, outros possam também tomar o Filho de Deus, abraçá-lo, merecer as graças do perdão e do progresso espiritual, consciente de que rezando a este Deus Menino, está se rezando ao Deus onipotente, com quem desejamos falar carregando-o em nossos braços. A espiritualidade do Presépio também se expressa pela alegria do velho Simeão, homem sábio por excelência, que reconheceu, imediatamente, como Salvador do mundo e proclamou como Luz para iluminar as nações e glória de Israel a criancinha que recebeu em seus braços. Que seja esta a nossa espiritualidade no hoje de nossas famílias, nossas comunidades, da Igreja e da sociedade.

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