Reflexão sobre o 21º domingo do Tempo Comum

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Ildo Bohn Gass – biblista popular, assessor e escritor do CEBI

Lutai para entrar pela porta estreita

Nos capítulos 9 a 19, Lucas apresenta Jesus caminhando para Jerusalém (Lucas 9,51-53; 13,22). Às pessoas que o seguem pelo caminho, Jesus propõe jeitos novos de comunhão com Deus como espaços de liberdade e de libertação.

A narrativa do evangelho proposta para este final de semana encontra-se em Lucas 13,22-30. Nela, Jesus deixa claro que faz parte do seu projeto de libertação quem anda no caminho da justiça, isto é, que entra pela porta estreita da casa do Reino.

Neste relato, mais uma vez encontramos Jesus ensinando abertamente nas cidades e aldeias. Assim, anuncia o caminho da justiça a todas as pessoas, independente de sua cultura ou etnia. Jesus dirige-se decididamente para Jerusalém, onde enfrentará os poderes da injustiça, e que o condenarão à morte (cf. Lucas 13,22).
Podemos dividir a catequese sobre o caminho do discipulado em quatro momentos.

  1. Senhor,são poucos os que se salvam? (Lucas 13,22-23)

Jesus “passava por cidades e aldeias e caminhava para Jerusalém”. Essa informação não está à toa no lugar em que se encontra. É que o tema fundamental desta narrativa é a respeito do caminho que leva à salvação.

É justamente no caminho para Jerusalém, o caminho do seguimento (Lucas 9,51-19,48), que Jesus vai clareando qual é o projeto para as pessoas que decidem segui-lo. É o caminho da não violência (Lucas 9,51-56), da prioridade do anúncio do Reinado de Deus (Lucas 9,57-62). É levar a todos os povos do mundo a paz, a saúde, a boa-nova do Reino e a superação de todas as forças maléficas (Lucas 10,1-20). É priorizar os pequeninos (Lucas 10,21-25), bem como a única lei, a do amor pleno, que se traduz, a exemplo do samaritano, em solidariedade com quem sofre discriminação e violência (Lucas 10,26-37).

Para não nos alongarmos, lembramos ainda que o caminho do discipulado é o da partilha (Lucas 12,33-34), ao contrário da ganância do homem rico (Lucas 12,16-21) e do rico avarento (Lucas 16,19-31). Só por isso, já é possível perceber que a porta para entrar nesta casa do Reino é estreita, muito estreita. Além de exigir renúncia e desapego, esforço e perseverança, ela enfrenta interesses pesados, sejam eles políticos, econômicos ou religiosos. Não é por acaso que o texto informa que Jesus está a caminho de Jerusalém, onde viverá o desfecho deste conflito, sendo condenado à morte pelos poderes religiosos e imperiais, agora de braços dados (Lucas 13,31-35; 23). A porta estreita da justiça também é a porta da cruz (Lucas 18,31-34).

É neste contexto que um judeu anônimo em meio ao povo pergunta: “Senhor, são poucos os que se salvam?” No judaísmo daquele tempo, era pensamento comum que somente os judeus eram o povo eleito e que a salvação era para eles. É verdade também que judeus mais piedosos pensavam que não bastava ser judeu. Era preciso também viver a lei de Deus em todos os seus detalhes.

Jesus, no entanto, não responde a pergunta. Em vez de dizer quantos se salvam, Jesus deixa claro que a salvação não pertence a nenhum povo especial ou a nenhum grupo privilegiado. Ela é de todas as pessoas que lutam para entrar pela porta estreita.

  1. Lutai para entrar pela porta estreita (Lucas 13,24)

Jesus esclarece que há duas portas, dois caminhos. Um é estreito e o outro é largo. Jesus se refere a que portas? São, na verdade, dois projetos de vida.
Ainda no caminho para Jerusalém, Jesus resume esses dois projetos da seguinte forma: “Nenhum servo pode servir a dois senhores: ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará a outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lucas 16,13).

De um lado, temos o projeto do dinheiro. Entrar pela porta deste projeto não exige esforço. Ela é larga e tem como mística o individualismo, o consumismo e a busca de riqueza individual como sentido de vida.

O outro projeto é o Reino de Deus e a sua justiça. Entrar pela porta deste projeto exige esforço. Seguir este caminho é deixar o individualismo e a acomodação, o pensar somente em si e o acumular. Entrar pela porta da equidade requer acolhida e solidariedade, partilha e superação de preconceitos. Tudo isso exige conversão permanente aos valores de Deus. E Jesus tem claro que, diante das facilidades que o outro caminho oferece, é preciso esforçar-se para ser fiel ao plano de Deus. Essa foi sua experiência na luta contra as propostas diabólicas deste mundo, isto é, a fama, o poder e a riqueza (cf. Lucas 4,1-13).

Adiante, no próprio evangelho deste domingo, veremos que o segundo projeto é a prática da injustiça. Assim, Jesus deixa-nos claro que lutar para entrar pela porta estreita é o mesmo que praticar a justiça.

  1. Afastai-vos de mim, vós todos, praticantes da injustiça (Lucas 13,25-28)

Na sequência, Jesus conta uma parábola a respeito de um banquete a portas fechadas, o banquete do Reino. Ali, terão lugar os praticantes da justiça.

Não entra pela porta do Reino quem optar pela prática da iniquidade. É o contrário do projeto da porta estreita.
Quem pratica a injustiça exclui-se da casa do Reino. Ali não entrará, pois busca portas largas e cheias de facilidades. É que a porta da casa do Reino é restrita. E não é Jesus quem exclui ou fecha a porta. Quem pratica a injustiça está apegado à riqueza, ao poder e ao consumismo. Está muito “gordo” para passar na porta da justiça. E, então, não existe chance para ele? Sim, há. Porém, precisa queimar muita “gordura”, a gordura da injustiça com todos os seus frutos de violência, de discriminação e de exclusão.

Vimos acima como Jesus se referiu aos dois caminhos fundamentais. De um lado, o projeto de Deus que gera vida em abundância (João 10,10) e, de outro, o projeto do dinheiro. E “no amor ao dinheiro está a origem de todos os males” (1Timóteo 6,10).

Conhecemos também quais são os frutos de quem adere a esse projeto da porta larga. Para quem busca esta porta não servem desculpas. Não adianta dizer “nós comemos e bebemos contigo e ensinaste em nossas praças” (Lucas 13,26). Não basta somente participar na comunidade, nas liturgias e na catequese. É preciso muito mais. É preciso o essencial: praticar a justiça. A vida comunitária tem sentido quando celebra e fortalece a luta para entrar pela porta estreita, a prática da justiça.

  1. A boa-nova de Jesus é para todas as pessoas que lutam por justiça (Lucas 13,29-30)

Por fim, em vez de Jesus responder ao judeu anônimo quantas pessoas se salvam, se são poucas ou muitas, Jesus aproveita a oportunidade para mostrar que a boa-nova do Reino não pertence a nenhuma pessoa ou movimento, povo ou grupo privilegiados. A salvação, a participação no Reino, não é mérito de ninguém. No entanto, ela pertence aos justos (Lucas 14,14). Faz parte do Reino quem decidir com firmeza pela porta do discipulado, a porta estreita. E esta requer esforço.

E mais. Esta porta da justiça não tem fronteiras. Não existe ali um porteiro que faz uma triagem prévia. O direito de passar por essa porta não é exclusivo de nenhum movimento religioso ou filosófico. Na porta estreita passam todas as pessoas de boa vontade e que estão abertas ao caminho da equidade, independente da cor da pele, da idade, do sexo, da religião. Pois outro será o critério. Será a prática da justiça, que gera pessoas recriadas, que produzem frutos de partilha e de solidariedade, de liberdade e de vida. Em Mateus 25,34-36, Jesus recorda o que caracteriza uma pessoa justa: é todo aquele que se solidariza com quem está com fome e com sede, sem roupa e sem casa, sem saúde e sem liberdade.

Nisso, aliás, consiste a verdadeira religião: “assistir os órfãos e as viúvas em suas aflições, conservando-se sem mancha neste mundo” (Tiago 1,27). E, segundo Amós 5,24, o verdadeiro culto a Deus é aquele em “que o direito corre como a água e a justiça como um rio perene”.

O Livro de Atos dos Apóstolos, que foi escrito pelos mesmos autores do evangelho segundo Lucas, resume em poucas palavras essa perspectiva universal do Reino, tema do evangelho deste final de semana. Assim afirma o judeu Pedro na casa do gentio Cornélio: “Na verdade, eu me dou conta que Deus não faz acepção de pessoas e de que, em toda nação, quem lhe for fiel e praticar a justiça é acolhido por ele” (Atos 10,34-35).

Lutai, portanto, para entrar pela porta estreita, a porta da casa do Reino.

Texto com autoria de Ildo Bohn Gass, biblista popular, assessor e escritor do Centro de Estudos Bíblicos.

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Padre Adroaldo Palaoro

A porta que dá acesso a vida

“Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita” (Lc 13,24).

Segundo o relato de Lucas, um desconhecido interrompe o caminho de Jesus e lhe faz uma pergunta, tão frequente naquela sociedade religiosa: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?”

Tal pergunta, no fundo, é uma ofensa ao amor de Deus e, por detrás dela, já percebemos uma falsa imagem d’Ele, como se Deus fosse aquele que põe travas à salvação e não quer que este dom chegue a todos.

Por isso, Jesus não responde diretamente à pergunta. O importante não é saber quantos se salvarão; não lhe interessa especular sobre este tipo de questões estéreis, mas vai diretamente ao essencial e decisivo: viver com atitude lúcida e responsável para acolher a salvação do Deus que é suma bondade e quer que todos se salvem. Quem está disperso e distraído não está em sintonia com o dom da salvação, perde a oportunidade de acolhê-la e deixar-se inspirar por ela. Por isso, Jesus insiste: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita”.

Para entender corretamente o apelo a “entrar pela porta estreita”, é preciso recordar as palavras de Jesus encontradas no evangelho de João: “Eu sou a porta; quem entrar por mim será salvo” (10,9). Entrar pela “porta estreita” é fazer caminho com Jesus, aprender a viver como Ele, revestir-se do modo de ser e de viver d’Ele… O que Jesus pede não é rigorismo legalista, mas amor radical a Deus e aos outros.

Por isso, seu chamado é fonte de exigência e não de angústia. Jesus é uma porta sempre aberta, para que, ao passar por ela, vivamos em plenitude. Ninguém pode fechá-la; só não conseguimos atravessá-la quando nos fechamos em nosso legalismo e moralismo.

Ao longo da história da espiritualidade cristã esta frase – “esforçai-vos por entrar pela porta estreita” – foi entendida como “sacrifício”, “mortificação”, “renúncia”… Uma leitura mais serena destas palavras, no entanto, nos faz ver que não se pode confundir “porta estreita” com “conquista de méritos e recompensas”, inflando um “ego religioso e perfeccionista”.

Não conhecemos nenhum mestre espiritual que tenha dito que a porta que conduz à Vida seja cômoda ou ampla. Espaçosa e plena é a própria Vida, mas a porta é estreita. A rigor, é tão estreita, que só pode ultrapassá-la quem está disposto a esvaziar sua pequena identidade egóica.

Sabemos que, um “ego inflado”, compulsivo, cheio de si, obeso…não tem como passar pela “porta estreita”. Para entrar por ela é preciso despojar-se de tudo aquilo que foi sendo acumulado ao longo da vida: posses, honras, consumismo, vaidades, poder, prestígio… “Entrar pela porta estreita” é desapropriação do ego, é desinflar-se, deixar transparecer a verdadeira identidade do próprio ser.

Para fazer o caminho com Jesus não se pode ter excesso de gorduras nas ideias, no coração, nas atitudes… Ser peregrino com Ele supõe leveza, flexibilidade, mobilidade…

As portas do Reino estão sempre abertas; e estão abertas para todos. Mas, muitos “egos” vivem cheios de si mesmos e ocupam todo o espaço da entrada da porta. Eles não entram, porque estão bloqueando a porta, mas também não deixam entrar aqueles que querem passar por ela.

Os “egos inflados” acreditam estar dentro, quando na realidade estão fora; acreditam ser donos da porta; não se atrevem a entrar por medo à verdade e preferem ter um pé dentro e outro fora.

Numa perspectiva psicológica, conhecemos a imagem da porta nos nossos sonhos. Quando sonhamos com uma porta trancada, isso significa que perdemos o contato com nosso interior, com nosso coração, com nossa essência e vivemos apenas na exterioridade.

No evangelho deste domingo, as pessoas que o dono da casa afirma não conhecer, vivem apenas na superfície de si mesmas. Elas não têm uma vida ruim, mas tudo o que fazem acontece apenas no mundo exterior e não tem nenhuma relação com seu coração. Até mesmo sua fé é meramente exterior. Elas vão à Igreja, são rígidas com as leis morais e cumprem com os deveres religiosos. Mas ao fazer isso não entram em contato com seu coração. Elas até se lembram que seguem Jesus, dizem ter comido e bebido com ele e ter ouvido seu ensinamento. Mas seu coração está fechado. A proposta de vida plena, apresentada por Jesus, não desperta ressonância no “eu profundo” delas.

O dono da casa ao dizer -“não sei quem sois” – simplesmente está afirmando que tais pessoas não se parecem em nada com Ele.

A dureza destas palavras ressoa como um chamado realista a nos despertar para reconhecer-nos na Vida. Quem não entra em contato com sua dimensão mais profunda, não participa da vida, aquela revelada pelo “Reino do Pai”. Afinal, “o Reino de Deus está dentro de vós” Lc 17,21)

Portanto, a parábola deste domingo nos convida a fazer a travessia do exterior para o interior, restabelecendo o contato com nosso coração. Na verdade, a porta estreita conduz a um horizonte mais amplo; atravessá-la significa alcançar a harmonia conosco e fazer emergir o que é mais nobre em nós: recursos, dons, criatividade…. Se nos contentarmos em seguir o modo de viver dos outros, não viveremos a verdade de nós mesmos. Nosso processo de humanização só poderá se ampliar se encontrarmos nossa porta pessoal e passarmos por ela.

Indubitavelmente, passar pela “porta estreita” significa uma experiência de “morte” àquilo que não somos para que possa viver o que somos. Só assim nossa vida, ao atravessar a porta, se expandirá.

E essa morte não acontece sem dor: ao ego lhe dói morrer a seus apegos, suas gratificações, suas necessidades, suas expectativas; ao ego lhe dói fazer uma “lipoaspiração” de suas gorduras; ao ego lhe dói deixar o que lhe dá uma sensação de segurança. Por isso, quando ele se sente frustrado, começam a aparecer sensações degradáveis e uma série de mecanismos de defesa entram em ação.

Com sua mensagem forte, Jesus nos convida a procurar e encontrar a chave para abrir a porta da casa do nosso “eu verdadeiro”, a entrar em contato com nosso coração, o lugar onde habitam os aspectos benéficos da nossa personalidade, as boas tendências, as qualidades positivas, os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes originais, as aspirações de grande fôlego, as ideias-força, os dinamismos da vida… O “tesouro do ser”, ainda que pareça esquecido, permanece armazenado e pode tornar-se a força que orienta toda a vida, um lugar de fecundidade, de criatividade, fonte de renovação…

O símbolo da “porta” não se define em si como um espaço, não é um lugar, mas é o “limite” entre um lugar e outro, é o interstício entre dois espaços, é o que divide dois modos de ser e viver.

“Passar a porta” significa ir ao encontro do novo, do futuro, do diferente, do “fora do normal”…

O “outro lado” é um espaço não conhecido, é um lugar ainda não explorado.

Somos “seres de travessia”; é próprio do ser humano ousar, romper, ir além… Para isso é preciso arriscar para viver uma experiência transformadora, aproximando-nos do diferente: abrir portas de mundos que desconhecemos; viver situações às quais não estávamos acostumados; sentir coisas que nunca havíamos sentido; conhecer segredos que tornarão mais autêntica nossa vida…

Para meditar na oração

A porta estreita que atravessamos representa a nossa porta pessoal, que precisamos encontrar e atravessar, para deixar o rastro da nossa própria vida neste mundo. A porta espaçosa representa a que todos usam; a porta es-treita é a passagem original que Deus preparou para cada um de nós: ela aponta para nossa identidade única e é por ela que Deus acessa ao nosso interior. É nas fendas de nossos limites e fragilidades que Deus encontra mais facilidade para entrar em nosso coração e não pela porta da perfeição.

– A “porta” da sua vida dá acesso ao novo e diferente ou está travada pelo medo e preconceito?

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Pe. José Antônio Pagola

Confianca sim, frivolidade, não.

José Antonio Pagola

A sociedade moderna vai impondo cada vez mais força, um estilo de vida marcado pelo pragmatismo do imediato. Pouco interessam as grandes questões da existência. Já não temos certezas firmes ou convicções profundas. Pouco a pouco, estamos convertendo-nos em seres triviais, carregados de tópicos, sem consistências interiores nem ideais que alentem o nosso viver diário, para além do bem-estar e da segurança do momento.

É muito significativo observar a atitude generalizada de muitos cristãos diante da questão da «salvação eterna» que tanto preocupava há não muitos anos: muitos a apagaram, sem mais, da sua consciência; alguns ainda sentem-se com direito a um «final feliz»; outros já não pensam nem em prêmios ou castigos.

Segundo o relato de Lucas, um desconhecido faz a Jesus uma pergunta frequente naquela sociedade religiosa: «Serão poucos os que se salvam?». Jesus não responde diretamente à sua pergunta. Não lhe interessa especular sobre esse tipo de questões, tão queridas por alguns mestres da época. Vai diretamente ao essencial e decisivo: como devemos agirpara não sermos excluídos da salvação que Deus oferece a todos?

«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita». Estas são as suas primeiras palavras. Deus abre-nos a todos a porta da vida eterna, mas devemos esforçar-nos e trabalhar para entrar por ela. Esta é a atitude saudável. Confiança em Deus, sim; frivolidade, despreocupação e falsas seguranças, não.

Jesus insiste, acima de tudo, em não nos enganar com falsas seguranças. Não é suficiente pertencer ao povo de Israel; não é suficiente ter conhecido pessoalmente Jesus nos caminhos da Galileia. O decisivo é entrar desde agora no reino de Deus e da Sua justiça. De fato, aqueles que são deixados de fora do banquete final são, literalmente, «aqueles que praticam a injustiça».

Jesus convida à confiança e à responsabilidade. No banquete final do reino de Deus não se sentarão somente os patriarcas e profetas de Israel. Estarão também pagãos vindos de todos os cantos do mundo. Estar dentro ou estar fora depende de como cada um deles responde à salvação que Deus oferece a todos.

Jesus termina com um provérbio que resume sua mensagem. Em relação ao reino de Deus, «há últimos que serão os primeiros e primeiros que serão os últimos». Sua advertência é clara. Alguns que se sentem seguros de serem admitidos podem ficar de fora. Outros que parecem excluídos de antemão podem ficar dentro.

 

Entrar pela porta

Ana Maria Casarotti.

Jesus continua sua viagem a Jerusalém apresentando o Reino de Deus para todas as pessoas que o seguem. Cada uma delas é destinatária da Boa Nova que Jesus anuncia e proclama com sua vida. Cada pequena oportunidade é aproveitada para apresentar a novidade do Reino assim como suas exigências e condições. Acolher Jesus e sua mensagem é estar disposto a segui-lo no seu caminho, com um coração e espírito aberto e sem fronteiras. Para isso é preciso renunciar a uma vida limitada aos nossos critérios orgulhosos e egoístas e deixar-nos ensinar continuamente pelo Espírito.

Após situar-nos no caminho a Jerusalém, o texto narra a pergunta de uma pessoa da multidão: “Senhor, é verdade que são poucos aqueles que se salvam?” É uma pergunta que desperta ainda outras interrogações: Que se entende por salvação? Qual é o interesse desta pessoa? Salvação material ou salvação espiritual? Pensa-se na salvação aqui ou no além? Quais são as condições para ser salvo? A salvação é individual ou comunitária? Qual o número de salvados ou o número de condenados? É possível saber se estamos salvos?

A questão e a dúvida sobre a salvação atravessam a história da humanidade. Ao longo de vários séculos, diferentes grupos religiosos pregam sobre as pessoas salvas: para alguns há um número predeterminado, para outros é uma realidade que acontece no além, fruto de uma recompensa pelas atitudes e forma de vida nesta terra. Para os fariseus da época de Jesus, a salvação era uma realidade reservada ao povo escolhido e só a ele. Em outros ambientes dominava uma visão mais pessimista e dizia-se que só um pequeno grupo era destinado à felicidade eterna.

Jesus não se preocupa em oferecer uma resposta para a pessoa, mas aproveita a ocasião para oferecer um ensino fundamental. Ele vai explicar aos seus ouvintes qual é o caminho para participar do banquete definitivo do Reino.

“Façam todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. Em primeiro lugar, é importante ter presente que todos/as são convidados/as para esta festa, em que o mesmo Senhor será o servidor! Esta universalidade do Reino de Deus, pregada e vivida por Jesus escandaliza aqueles judeus que têm uma ideia exclusivista de salvação, só eles são o povo escolhido de Deus!

Mas Jesus apresenta uma inovação na sua mensagem porque o Reino de Deus é para todas as pessoas, sem distinção. Ninguém fica excluído, todos/as são convidados/as a participar da festa do Reino. Jesus preocupa-se em apresentar Deus como um Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos/as, especialmente os pobres, os marginalizados e excluídos pelasociedade.

Jesus fala-nos de entrar pela porta estreita. É uma imagem sugestiva, ainda mais considerando que está falando para um grupo de pessoas que eram geralmente campesinos ou pescadores e suas casas possivelmente não tinham portas. Em que circunstância aparece uma porta?

Num primeiro momento pode-se pensar que protege aquilo que desejamos que esteja ao resguardo, mas também serve para restringir a entrada ou passagem de um ambiente para outro. Uma porta estreita impede a entrada, nesse interior mais íntimo, nesse espaço de resguardo de um grande tesouro, das coisas que são excessivamente grandes. Não é possível entrar aí com uma vida cheia de fardos que engordam o homem e impedem viver na lógica do Reino: o egoísmo, a riqueza, o orgulho, o desejo de poder e domínio, a busca de um bem-estar pessoal quando ao nosso redor milhares de pessoas morremde fome a cada dia. Tudo aquilo que impede a pessoa humana de entrar na lógica do serviço, da partilha, da entrega da própria vida.

Considerando a imagem de proteção, podemos perguntar-nos qual é o tesouro que devemos manter cuidadosamente e exige-nos vigilância para que não seja arrebatado por qualquer vento que sopra ao nosso redor. A salvação chega quando aceitamos Jesus e procuramos seguir suas pegadas. Essa é a porta estreita, uma porta única que leva à vida. A porta estreita converte-se assim em porta grande aberta a todos e todas, sem exclusivismos. Todos somos convidados a seguir o caminho do Senhor. A abertura àuniversalidade não dilui o conteúdo do convite!

Paremos e olhemos ao nosso redor. Como vivem nossos/as irmãos/ãs? Como é minha vida referente a eles/as?

Oração

Peçamos a Deus Pai e Mãe de toda família humana que nos dê sua graça para converter cada vez mais nossa vida a serviço de seus filhos e filhas.

Deus de toda a vida

Deus de toda a vida,
único Senhor da terra,
Pai e Mãe da família humana!
Tu nos queres vivendo em irmandade,
sem medo, sem egoísmo, sem corrupção,
na justiça, na solidariedade e no amor.
Teu é o Reino e a glória para todo o sempre.
Amém.

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